O poder nos relacionamentos

Para que as coisas circulem sobre os trilhos do amor que nos faz bem, nenhum dos dois deve sentir que tem poder sobre o outro, mas deve contribuir para que o outro alcance o máximo poder em si mesmo. A realidade, não obstante, é que os dois membros do casal com freqüência se envolvam em lutas de poder que minam a relação. De fora, quase sempre parece que o homem é o mais forte. Contudo, muitas mulheres, no íntimo, julgam-se melhores que seu companheiro. Não se pode generalizar, claro, mas me consta que isso acontece com freqüência. E, quando falta entre os dois o verdadeiro respeito, a relação começa a ser desigual e mais competitiva que cooperativa, rompe-se a franqueza e a felicidade do vínculo profundo, mesmo que o relacionamento perdure.
Tanto homens quanto mulheres podem tentar imaginar se seriam capazes de inclinar a cabeça, suavemente e de coração, perante o(a) companheiro(a), e viver isso como um gesto de reconhecimento e respeito a sua existência e sua realidade, e não como uma humilhação e uma derrota. É possível? Fugindo de preconceitos e ideologias, o que encontro em minha experiência real nos workshops é que as pessoas que lutam e competem vivem isso como impossível, ao passo que as que sentem amor e consideração por seu(sua) parceiro(a) experimentam-no como alegria, beleza e liberdade.
Há outro exercício interessante: olharmos para o(a) parceiro(a) e nos perguntarmos , de forma nua, crua e verdadeira, se nos sentimos superiores, iguais ou inferiores. Não em uma área determinada, não no atletismo ou no sudoku, não na culinária ou jardinagem, mas sim no essencial, no mais íntimo de nossa verdade interna. Propus esse exercício aos presentes em um workshop, e, curiosamente, contra o que se poderia esperar, mais mulheres se sentem melhores que os homens. Sei que isso pode ser polêmico, mas é o que diz minha experiência: muitas mulheres se sentem melhores, algumas se sentem iguais e só algumas se sentem piores. Com os homens é o contrário: só alguns poucos se sentem, na realidade, melhores que a companheira, muitos se sentem iguais e muitos se sentem piores.
Acredito que o homem, no íntimo, tem ciência do poder da mulher, do poder afetivo, do poder que lhe dá a maternidade, de sua intimidade emocional, de como sabe se mover em termos de comunicação, relação e vida, ou seja, nos assuntos essenciais. Talvez por isso o homem tenha dominado o poder econômico ou político, porque estava assustado com sua ignorância nos assuntos emocionais e analógicos. Até agora nos diziam que a mulher só tinha o poder dos sentimentos, mas acontece que são justamente os sentimentos que movem o mundo, inclusive o mundo dos poderes econômico e político.
Seja como for, é conveniente estendermos o olhar, de um modo mais amplo, para o fato de que tanto homens quanto mulheres são afetados por um mal maior, por uma praga emocional de maior alcance que nos mantém doentes em nossa humanidade, que vem da expulsão do paraíso comunitário e tribal de nossos antepassados caçadores-coletores, para passar à mente patriarcal na qual estamos culturalmente submersos, e que quase confundimos com nossa natureza, na qual o outro já não é um irmão, e sim um inimigo. Vivemos mergulhados em um paradigma competitivo que julgamos natural, infectados como estamos pela grande importância do eu pessoal. […]
O verdadeiro poder está em se afirmar na realidade de si mesmo, não em se sentir superior a outra pessoa ou em domina-la física ou psicologicamente. Experimentamos o próprio poder quando nos enraizamos e nos reconhecemos em nossa experiência real, a cada momento e lugar; quando estamos em conformidade com nossa realidade, com nossos sentimentos, problemas, alegrias, vivências, pensamentos, contradições, necessidades; com nosso lugar de origem, cultura, família, lutas; com nossos desejos de mudar aquilo de que não gostamos ou aquilo que sentimos como injustiça etc., ou seja, quando estamos em sintonia com nossa realidade tal como ela é a cada instante, e a administramos com respeito por nós mesmos e pelos outros.
Trecho extraído do livro: “O Amor que nos faz bem: Quando um e um somam mais que dois” de Joan Garriga Bacardi

Sobre terminar bem os relacionamentos

Como eu dizia, o principal indicador de que uma relação anterior está bem terminada é que somos capazes de estar felizes em uma relação posterior. E, em sentido contrário, o principal sintoma de que uma relação não está bem terminada é que ainda não conseguimos encontrar outra direção nem nos envolvermos em outra história com força e com sentido, ou seja, boa parte da energia ainda está em assuntos do passado.  […]

Por outro lado, terminar bem significa fechar com amor, com amor pelo que vivemos e com amor pela pessoa, mas em outra posição. Porque sobre o amor do que vivemos antes podemos construir um edifício forte. Certas pessoas pretendem fechar o passado com muito ressentimento, com muita amargura, com muito azedume. E então tentam construir um edifício sobre cinzas e ruínas, e ele sempre será fraco.

Uma segunda (ou terceira, ou quarta) relação deve ser construída sobre o amor da anterior, sobre o que houve de bom da anterior, deve-se dignifica-la, por assim dizer. Certas pessoas buscam uma segunda relação e dizem: “A anterior foi um desastre, esta será boa”, ou desqualificam a pessoa anterior e pensam que a seguinte será melhor, com o príncipe ou a princesa encantada esperada. E então algo não funciona, ou funciona forçadamente apenas por um tempo, visto que a oposição a algo no início nos da uma força especial, mas depois enfraquece o relacionamento e é muito provável que também não prospere. Sobre a rejeição não se constrói bem, porque o que rejeitamos está sempre atrás de nós perseguindo-nos, tomando nossa energia. Edificamos melhor quando temos bons alicerces e quando podemos reconhecer o amor que houve no anterior, e seus limites, e quando nos rendemos a esses limites.

[…]

Muitos homens e mulheres se apoiam nas feridas que relacionamentos anteriores lhes causaram para dizer não a um novo amor. Mas a cada manhã podemos nos levantar e dizer: “Sim, eu caminho para a vida, caminho para minha felicidade”, ou “Ponho bálsamo em minhas feridas em vez lhes conceder o lugar do tirano”, ou também: “Como já fui ferido antes e consegui superar isso, não preciso de novas armaduras, posso abrir mais facilmente meu coração”. Só devemos nos recusar a tirar partido de nosso próprio sofrimento. Caminhar para a vida é uma decisão que requer força para deixar a dor para trás; requer renunciar aos benefícios que obtemos com nossas feridas.

[…]

O novo se constrói sobre o velho quando o velho não são ruínas e cadáveres, e sim, bons alicerces de amor, respeito e gratidão. Portanto, uma relação termina de forma saudável quando, com o tempo necessário, dentro de nós torna a fluir o amor e do lado de fora ficam claros os nossos limites.

Trecho extraído do livro “O amor que nos faz bem: Quando um e um somam mais que dois” (Joan Garriga)

joan

Vingança amorosa

Ser criativo na vingança amorosa é uma arte que convém desenvolver. […] Na troca positiva, a fórmula é: você me da algo, eu lhe devolvo esse algo e um pouco mais, e, desse modo, o vínculo fica mais e mais forte; na troca negativa, a fórmula é: você me faz mal e eu lhe devolvo o mal, fazendo com que doa, mas um pouco menos. Isso é vingar-se com amor. E é importante fazer isso, pois a felicidade não cresce onde há bons e maus, vítimas e perseguidores, cumpridores e irresponsáveis. Mas cresce, pelo menos um pouco, onde há pessoas que se assumem como imperfeitas e tomam consciência de que cometeram erros e fizeram mal, e podem aceitá-lo com dignidade e repara-lo de uma forma construtiva, ao mesmo tempo assumindo que podem se ferir, e que isso também faz parte da paisagem dos vínculos de intimidade. Continuar pensando em termos de bons e maus prejudica muito as relações humanas e a vida. É preferível pensar que os dois, juntos, criam a realidade que têm e que cada um contribui com uma parte proporcional à do outro.

A ideia de vingança amorosa é simples, mas, claro, a forma como se concretiza pode ser um pouco mais complexa. Cada pessoa pode encontrar a sua a cada momento em função do contexto, mas sempre com o objetivo último de recuperar certo equilíbrio e continuar avançando. Porque o relacionamento, como todo sistema vivo, requer ao mesmo tempo estabilidade e mudança, desequilibrar-se e tornar a se equilibrar, e as duas coisas nas proporções adequadas. O casal navega na barca da vida, que exige segurança por meio de suas inércias, ritos consolidados e um status quo cristalizado, mas também atrevimento, inovação, criatividade e busca de soluções novas para velhos problemas.

Trecho extraído do livro “O amor que nos faz bem: quando um e um somam mais que dois” (Joan Garriga)

joan

Ainda sobre o poder, homens, mulheres e sobre voltar a confiar…

Seja como for, é conveniente estendermos o olhar, de um modo mais amplo, para o fato de que tanto homens quanto mulheres são afetados por um mal maior, por uma praga emocional de maior alcance que nos mantém doentes em nossa humanidade, que vem da expulsão do paraíso comunitário e tribal de nossos antepassados caçadores-recoletores, para passar à mente patriarcal na qual estamos culturalmente submersos, e que quase confundimos com nossa natureza, na qual o outro já não é um irmão, e sim um inimigo. Vivemos mergulhados em um paradigma competitivo que julgamos natural, infectados como estamos pela grande importância do eu pessoal. No livro La mente patriarcal, Claudio Narrando faz um diagnóstico preciso dos males do mundo: é essa mesma mente patriarcal, com seus longos braços que infectam tudo – a concorrência, a luta, a imposição, a inveja e todas as paixões baixas que governam o eu -, que, em sua pretensa grandeza, esquece a verdade essencial de que todos somos um. Um dos antídotos contra a mente patriarcal consiste na feliz integração da tríade básica e cada um: pai, mãe e filho, ou mente, emoção e instinto, e não no predomínio de uma figura sobre as outras.

Voltando ao tema de homens e mulheres, depois de ter feito a mesma pergunta muitas vezes, com idênticos resultados, cheguei a uma conclusão: se tantas mulheres acreditam intimamente que são melhores que os homens, talvez devamos aceitar que seja verdade, que elas guardam uma grandeza maior por conta de sua íntima conexão com a vida. E também fiz uma descoberta agregada: as mulheres mais inteligentes tomam cuidado para que os homens não notem tanto sua grandeza, para não dizer sua superioridade, ou seja, usam-na a favor do amor e do bem-estar compartilhado. A maioria das mulheres sabe que em algum momento terá de cuidar de alguma fragilidade dos homens, que os homens também quebram, que a aparência de força deles é só isso, aparência. É que emocionalmente o homem parece muitas vezes mais ignorante, dependente e vulnerável que a mulher, mas nem por isso tem menos coração. A genuína grandeza se encontra, para todos por igual, na vivência e integração de todas as nossas instâncias internas: mente racional, sentimentos, instinto, intuição e transcendência ou mente espiritual. Mas para não faltar à verdade, tenho de dizer que em muitos momentos cabe aos homens também apoiar as mulheres, com toda sua empatia e força, por conta das fraquezas e sofrimentos emocionais delas.

Na luta de poder que às vezes ocorre, algumas mulheres brigam pelas mulheres anteriores. Sua luta é, na realidade, aquela que as mulheres que as precederam não puderam travar com seus homens. Em algumas culturas até lhes é negado o estatuto de seres humanos em igualdade de condições. Foram controladas e subjugadas, de modo que, quando olhamos para o passado, quando cada mulher olha para trás, além do tempo de sua vida, certamente encontra muitas outras que sofreram nas mãos dos homens, que se sentiram subjugadas, humilhadas e não respeitadas, que tiveram de se sacrificar e enganar e que não viveram a companhia masculina como um amigo em quem confiar, mas o contrário. E também muitos homens, quando olham para trás, encontram outros homens que não puderam estar em paz nem sentir confiança nas mulheres, que lutaram contra elas, ou as prejudicaram com sua arrogância e autoritarismo, e por isso se sentem afetados, por uma culpa que não lhes pertence. Por isso quando os homens conseguem reconhecer e respeitar a culpa dos homens anteriores, e as mulheres conseguem reconhecer e respeitar a raiva das mulheres anteriores, podem ver uns aos outros de um lugar mais atualizado. E, então, começar a confiar…

Trecho extraído do livro “O amor que nos faz bem. Quando um e um somam mais que dois” (Joan Garriga)

joan

O verdadeiro poder

O verdadeiro poder está em se afirmar na realidade de si mesmo, não em se sentir superior a outra pessoa ou em dominá-la física ou psicologicamente. Experimentamos o próprio poder quando nos enraizamos e nos reconhecemos em nossa experiência real, em cada momento e lugar; quando estamos em conformidade com nossa realidade, com nossos sentimentos, problemas, alegrias, vivências, pensamentos, contradições, necessidades; com nosso lugar de origem, cultura, família, lutas; com nossos desejos de mudar aquilo de que não gostamos ou aquilo que sentimos como injustiça etc., ou seja, quando estamos em sintonia com nossa realidade tal como ela é a cada instante, e a administramos com respeito por nós mesmos e pelos outros.

Todos precisamos sentir nosso poder. Sentir que podemos, que somos adequados, que nos sustentamos sobre nossos próprios pés e somos válidos. Quando vivemos esse poder no relacionamento, o poder de um convida o poder do outro. E, então, os dois poderes produzem cooperação e respeito. Virginia Satir, no livro Contato com tato, ensina que o verdadeiro poder tem a ver com a congruência e com o que ela chama de “as cinco liberdades”: a liberdade de ver e escutar o que está aqui em vez do que se supõe que deveria estar; a liberdade de sentir o que se sente em vez do que se deveria sentir;  a liberdade de dizer o que se sente e pensa se quiser em vez de fingir; a liberdade de pedir o que se quer em vez de pedir permissão, e a liberdade de arriscar em vez de optar somente por sentir-se seguro. O poder da congruência foge, portanto, de posições de culpa, vitimismo, hiper-racionalidade ou indiferença, que, para Satir, não deixam de ser lugares de sofrimento e falso poder nas relações íntimas.

 

Trecho extraído do livro “O amor que nos faz bem – quando um e um somam mais que dois” Joan Garriga.

 

joan

Caminho da alma

Como digo, passamos o tempo criando um universo de afeições e fobias, temores e fervores, amores e ódios. Isso é feito mediante três ferramentas principais: a avaliação, a comparação e o juízo. Fabricamos o adorno necessário com toda a gama de emoções e paixões humanas: inveja, zelo, medo, pesar, tristeza, reclamação, exigência, enfado, ressentimento, culpa, vergonha, vitória, esperança, etc. Quem faz isso? Nosso ego, nosso caráter, aquilo que cremos ser.

Como seres individuais, costumamos unificar uma torre de refúgio para observar a vida e o transcorrer das coisas. Dali observamos o mundo e o encobrimos ou o iluminamos com nossas ideias a respeito de como devem ser as coisas para nos assegurarmos de que sejam como devem ser, e então podemos nos alegrar ou sofrer quando não é assim. É humano: que alegria quando as coisas são como desejamos, e que pena quando nos trazem frustração e nos contrariam! É o vaivém da vida. Todavia, esse modo de funcionar é pequeno e restrito, demasiado dependente dos caprichos da vida. É a fonte do sofrimento, nos deixa doentes e nos afasta do assentamento na Grande Inteligência. Em vez de olhar a beleza intrínseca de todas as formas da vida, nos horrorizamos diante de algumas e nos embevecemos frente a outras. O tirano, também chamado ego, vive dentro. O ego não é a maior das prisões, a escravidão mais velada e mais querida, a que menos estamos dispostos a questionar? Pois resulta que, como veremos, ser livre significa sê-lo de nós mesmos.

Assim é difícil escapar desse lugar que diferencia o bem e o ma. É o que nos toca como seres humanos, enquanto não despertamos. A boa notícia é que o mesmo instrumento, que nos afasta do paraíso, ou seja, a consciência que despedaça o mundo com seu bisturi conceitual, pode se desenvolver, amadurecer e chegar a nos avisar de nossa queda. E não só isso, mas também evitar nossa angústia e separação da vida natural. Quando isso acontece, quando recebemos esse aviso, dispara-se a primeira flecha em direção ao nosso despertar.

Tenho a suspeita de que a própria consciência inclui em si mesma a função de desmascarar o conceitual e encara-lo como é: uma ilusão, uma falsidade e um limite. A atenção onde a consciência diferencia e constrói conceitos é o que permite questioná-los e, talvez, colocar um fim. A consciência, percebendo a si mesma, pode potencialmente vislumbrar que seus intentos por criar um mundo próprio por meio de um sem-fim de imagens mentais a impede de encontrar o mundo real. Pois só um eu que alcança sua plena força é capaz de desnudar-se, suportar o tormento de que vão morrendo os personagens com os quais havia se identificado recorrer o verdadeiro caminho espiritual: chegar a ser ninguém. […]

Porque a meta do eu é desvanecer-se, dissolver-se nas águas do doce esquecimento, igual à do corpo. Alguns podem viver e reconhecer enquanto ainda permanecem na vida. Então já não gritam ao universo: “Eu existo!”. Guiados por uma profunda sabedoria que lhes faz felizes, sussurram a si mesmos: “Na realidade eu não existo, porém a vida canta em mim por algum tempo”.

Joan Garriga

(trecho extraído do livro “Viver na Alma: Amar o que é, amar o que somos e amar os que são”)

joan

O corpo como santuário da alma

Somos seres experienciais e a sutil substância de nossa experiência é produzida em nosso corpo. No corpo vivemos sensações, sentimentos, pensamentos e também a presença do transcendente. Ele é o laboratório pelo qual a Alma se expressa e experimenta, um presente material para nossa singular viagem pessoal a Ítaca. A residência do biológico, o hormonal, o instintivo: nosso santuário.

No corpo nos comprometemos com a grande inteligência que o governa, como refinamento e  conquista de milênios e milênios nos quais nossa espécie preservou e fez a vida evoluir. O corpo é a casa da vida e o legado primordial de nossos pais e ancestrais, que por meio dele nos passam uma vasta e útil informação.

O corpo não questiona a si mesmo. Segue regras de sua própria natureza. Nós, com nossa vontade, tentamos às vezes guiá-lo de acordo com nossas ideias, que nem sempre estão em consonância com suas necessidades. Por acaso o corpo está insatisfeito com si mesmo? É inimigo de suas doenças, quando na realidade ele mesmo as cria, as acolhe e até as leva à própria morte? Por acaso o corpo está contra ele mesmo?

O corpo é feliz quando é apreciado e respeitado, mimado e cuidado, quando é habitado com gratidão, como uma casa a qual damos nosso toque pessoal e a convertemos no reflexo do que somos. Todos temos a experiência de ir à casa de um amigo ou amiga e descobrir contentes que o espaço que habita lhe cai bem ou não. Ou, ao contrário, sentir que é um artifício, que com ela tenta parecer outro que não é.

A natureza tem prioridade sobre a mente individual, que é uma mente mais sábia e vasta na qual podemos descansar. O ponto é sintonizar nossa mente individual, nosso pensamento e vontade com a mente natural, com o que a natureza cria e organiza, tal como é. O primeiro passo para a sintonia é escutar e compreender o corpo. O segundo é deixá-lo viver em conexão com seus desejos mais profundos e com o que para cada um é natural e harmonioso.

Há muitas formas de nos sintonizarmos com nosso corpo. […]

Coloque-se em contato com a parte de seu corpo que sinta dor ou que incomode, a reconheça, a permita, a amplie inclusive, imagine que você se converte nela. Dessa maneira, você descobre que forma tem, que tendência ou impulso, quem parece quando se converte em seu rim dolorido ou na dor de costas ou no desafio de seu rosto. E também o que lhe diss, qual é sua mensagem, com o que tem de contribuir, pedir, rogar, exigir, agradecer, censurar.

Talvez (e essa é uma dinâmica muito comum quando se trata de doença) o membro dolorido ou o incômodo seja uma forma de conexão com alguém que não consegue se integrar. Frequentemente o corpo faz o trabalho que não fazemos, ama quando nós depreciamos. Certos sintomas ou doenças são tentativas de nos colocarmos em consonância com aqueles com quem estamos em dissonância. Frequentemente o corpo vive o outro lado dos assuntos que não nos animamos a viver abertamente: expressamos valor e força, mas o corpo se rompe como um passarinho que treme vulnerável e pede proteção.

Trecho extraído do livro “Viver na Alma” (Joan Garriga)

joan

“Sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”

Excerto do artigo* de Joan Garriga (2002). A Propósito de las Constelaciones Familiares en la Gestalt. Capítulo inserido no livro Gestalt de Vanguardia, de Claudio Naranjo. Editorial La LLave.

 

Poderíamos dizer que o principal tabu das pessoas é o tabu da felicidade e ainda que ela se deseje intensamente, pode ser difícil permitir-se ser intencionalmente feliz, quando a pessoa sabe que outras pessoas na família sofreram, foram infelizes ou que lhes tocou um destino particularmente difícil. Como disse Bert Hellinger “sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”.

Nas famílias actuam vínculos profundos de solidariedade que nos remetem para as limitações dos nossos antepassados, dificultam a sua superação e não nos permitem ir mais além. E ainda que vejamos nas constelações, uma e outra vez, que aqueles que foram infelizes desejam que a sua infelicidade seja respeitada e tomada como um destino próprio, sem que outros nele se envolvam, vemos também, uma e outra vez, como os sucessores ultrapassam esse limite e como, por uma espécie de amor mágico, pretendem libertá-los da sua desgraça ao tornarem-se eles próprios desgraçados, numa espécie de compensação negativa que afirma “se eu me sacrificar, talvez para ti seja melhor”. Desta forma repetem-se destinos e acumulam-se sacrifícios, sendo o resultado final ainda mais infelicidade. Por exemplo, um filho que se apercebe que um dos seus pais adoece ou deseja morrer (talvez por este seguir um antecessor ao qual se sente unido), ultrapassa o limite e diz internamente “eu adoeço no teu lugar” ou “eu morro no teu lugar” ou “sigo-te na desgraça ou na morte, etc.”.

Existe também na alma familiar uma instância profunda que procura restaurar o equilíbrio entre dar e receber e aí vemos também, com frequência, como os sucessores tentam expiar culpas dos antecessores, ao dar lugar àqueles que foram prejudicados e imitar o seu prejuízo. Como exemplo extremo, cito o de um filho cuja mãe morreu no parto. É um exemplo extremo porque a mãe dá o mais essencial – a vida -, e ela mesma perde o mais essencial. E para o filho é difícil tomar a vida a este preço tão alto e, frequentemente, procura enfrentar este tão grande desnível através da compensação negativa, dizendo a si próprio internamente: “a este preço tão elevado não a quero, portanto não a tomo plenamente e limito-me”. Mas o que é que assim a mãe ganha?  De novo actua este amor cego que não consegue ver claramente o desejo da mãe que morreu: de que o filho tome a sua vida plenamente e a desenvolva com felicidade e sucessos. Buda seria um exemplo de compensação positiva, pois faz grandes desenvolvimentos em memória da sua mãe que morreu três dias depois do seu nascimento, como consequência do parto.

 

*Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Adolfo Serra

joan

A triple orientação das constelações familiares

O passado nos conduz através da repetição, mas existe uma força poderosa, ainda maior, que vem do futuro e nos convida para a criatividade. Com sorte criamos formas de vida novas que não repetem necessariamente o destino e o jeito de quem veio antes. Se sucumbíssemos sempre à tendência de repetir não haveria novas formas e a vida se tornaria estática. Se a mãe praticou abortos, nós faríamos abortos. Se o pai viveu com culpa por algo que aconteceu na sua vida, nós viveríamos com culpa. Se o avô fracassou nos seus negócios, então nós também.

Parece que existe em nós uma tendência de nos parecer, de nos igualar, de viver submersos em aquelas atmosferas que são conhecidas porque foram transmitidas em nossas atmosferas familiares,  não de um jeito racional, nem sequer como linguagem da vontade ou da decisão, mas como algo osmótico, sutil, energético, magmático; algo que se respira nas famílias e na alma que as engloba. Mas a boa notícia é que a vida é criativa e orientada para o futuro. E o futuro está ai sempre, como uma força gigantesca, abrindo os seus braços com amor e com o desejo do melhor, nos oferecendo oportunidades para sermos novos, melhores, mais felizes e para que façamos coisas diferentes, para além do já conhecido.

Joan Garriga Bacardí

(Do workshop “A triple orientação das Constelações”. Barcelona, junho 2018)

(tradução livre autorizada M. Natalia M. H. Kopacheski)

joan

Relacionar-se

Vivemos um momento de abertura e, ao mesmo tempo, de desconcerto, sobre como podem ou devem ser os relacionamentos afetivos; e, nesse sentido, o que abordo – como se verá ao longo do livro -, situa-se em uma perspectiva de liberdade e de respeito, de fazer e deixar fazer. As pessoas não têm de comungar com dogmatismo de nenhum tipo, nem devemos nos sentir culpados por não fazê-lo. Há muita gente que sofre por não se encaixar em um esquema de suposta normalidade.

Há alguns anos escrevi: “Imaginemos um mundo no qual, por exemplo, a velhice, a doença, a timidez, a morte, o sofrimento inevitável, sejam bem vistos e façam parte respeitável do viver na mesma medida que seus contrários, a juventude, a saúde, a expressividade, a vitalidade e o prazer inevitável. Muitas pessoas sofrem ainda a pressão de não se encaixar naquilo que conviemos avaliar como bom; mas quem é capaz de afirmar que uma coisa é melhor que outra, que uma vida, por exemplo, é melhor que outra?”. A vida é felizmente, muito ampla e variada, e cada um tem suas predisposições e suas singularidades. Algumas pessoas são feitas para viver com o mesmo parceiro a vida toda; outras, para ter dez amantes ao mesmo tempo, e outras para ser padres ou freiras. Umas gostam de pessoas do mesmo sexo, e outras pessoas do sexo oposto. Cada um deve respeitar seu original jeito de ser, até mesmo suas próprias neuroses ou tendências condicionadas – embora deva trabalhar para modifica-las -, e não ficar tentando, de todas as maneiras possíveis se encaixar em um modelo ideal de relacionamento afetivo. O importante é a aceitação amorosa de si mesmo e da própria singularidade. E cada um pode encontrar regozijo no respeito a sua própria natureza e ser feliz seguindo-a. […]

Minha experiência me diz que nos relacionamentos afetivos não existem bons e maus, culpados e inocentes, justos e pecadores. O que existem são relacionamentos bons e ruins: relações que nos enriquecem e outras que nos empobrecem. Existem felicidade e infelicidade. Existem o amor que nos faz bem e o amor que não nos faz bem. É que não basta o amor para garantir bem-estar: é necessário um amor que nos faça bem. E reconhecemos este amor porque nele somos exatamente nós mesmos e deixamos que o outro seja exatamente como é, porque ele se orienta ao presente e ao que está por vir, em vez de nos amarrar ao passado; e especialmente porque gera bem-estar e realização.

Trecho extraído do livro: “O amor que nos faz bem – Quando um e um somam mais que dois”, Joan Garriga.