Sintonização e Personificação nas Constelações Familiares (Poppy Altmann)

Tradução Alexandre Wenceslau

“Ligue-se, sintonize-se, caia fora.” Timothy Leary

A sintonização é fundamental nas Constelações Familiares. Como facilitador, representante e como um membro do círculo, a sintonização proporciona sentido e conexão à constelação. Ela conecta o grupo, gera confiança e age como um receptáculo para memórias traumáticas criando limites seguros. Ela desacelera as coisas para igualar ao ritmo da alma, nutre a empatia, nos tira de nossas cabeças e nos coloca em nossos corpos e produz um espaço autêntico.Antes mesmo de conhecer a Constelação Familiar, trabalhei por vários anos como homeopata e comecei a frequentar aulas semanais de Dança dos 5 Ritmos1. A sintonização corporal é essencial nos 5 Ritmos; senão ficaríamos nos trombando na pista de dança. O facilitador encorajava nossa consciência, das pessoas a nosso redor e dos espaços entre nós. Se trombássemos em alguém ou pisássemos no pé de alguém, presenciávamos um interessante exemplo de falta de sintonização. Algumas pessoas ficavam constantemente invadindo espaços ou tropeçando. Pessoas traumatizadas podem ter dificuldade de encontrar seus limites físicos e, de acordo com Sarah Peyton (2016):“Por vezes o que percebemos é que as pessoas não têm noção de seus próprios corpos e é isso que é despertado nos trabalhos de constelação.” (p. 64)A homeopatia é uma modalidade muito voltada ao lado esquerdo do cérebro. Nós consultamos livros contendo diversas evidências e informações a respeito de medicamentos, sintomas, anatomia, fisiologia e patologia. Os mesmos livros também trazem informações sobre medicamentos convencionais, estudos sobre homeopatia e pacientes que a usaram. Fazemos perguntas. Tomamos nota do que o paciente está dizendo, diagramamos sintomas e tentamos nos comportar como “observadores imparciais”.Ela é também muito voltada ao lado direito do cérebro. Nós observamos nossos pacientes nos mínimos detalhes, observamos e ouvimos cuidadosamente: como se sentam, o que escolhem nos contar e como nos sentimos em sua presença. Além disso, utilizamos todos os nossos sentidos para analisar seus sintomas e se suas emoções nos tocam ou não. Movemo-nos naturalmente de um lado para o outro do cérebro se nos contam a respeito de experiências traumáticas e depois as registramos. Pausamos ao ouvir sobre tais eventos traumáticos, não somente para que o paciente se conscientize da seriedade daquilo que está falando, mas também a fim de sentir de que maneira vemos os traumas para que possamos ser empáticos.Peyton (2016) utiliza a neurociência para explicar a sintonização na Constelação Familiar. O processo de sintonização tem efeitos positivos na química do cérebro, acalmando os indivíduos que estão interagindo. “A sintonização é uma ação que faz o cérebro funcionar mais feliz.” (p. 62)Para alguns, a sintonização acontece fácil e naturalmente, enquanto que para outros é um exercício contínuo. Enquanto que a sintonização para um facilitador acontece por vezes livremente, pode ocasionalmente ser difícil de conhecer limites intuitivamente. Pessoalmente, falando, em alguns casos pode ser espantoso e permaneço na constante prática de me manter contida no espaço do cliente, mas também de permanecer afastada o suficiente de seu Campo a fim de responder congruentemente.Me foi sugerido que sobreviventes de traumas são mais hipervigilantes e conscientes do que está acontecendo ao seu redor em seu espaço. Se faço isso no papel do filho de um homem que se escondia durante a Guerra e cuja família estava sempre sob alerta, pode-se dizer que seja um comportamento compensatório para um trauma herdado? As pessoas comentam que estou sempre observando para perceber o que está acontecendo no ambiente e que percebo mais do que eles sobre o que as pessoas estão fazendo – um paralelo interessante para se notar. Especialmente, ao facilitar, percebo que alguns pontos cegos podem significar que eu fui facilmente pega pelo Campo, e posso apenas identificar em retrospecto em que ponto e por que isso possa ter acontecido. “Por um lado, todos temos um canal para conseguir informações, porém temos também que nos proteger de conseguir informações demais.” (Ruppert, F. 2006, p. 24)Algumas vezes duvido de mim mesma, e há sempre a inclinação em ser autêntica em minhas respostas. Recentemente em um grupo de prática, por exemplo, a cliente apenas desejava ser abraçada e minha resposta genuína foi abraçá-la. Isso foi apenas uma ‘entrevista prática’ de 10 minutos que provavelmente terminaria em uma interrupção do movimento de aproximação (IROM) em uma sessão de prática mais longa. No entanto, posteriormente, estava me questionando, abraçá-la era a melhor resposta? Por quanto tempo? Meu superego invadiu com tais pensamentos: “Deveria ter feito isso? Deveria ter dito aquilo?” etc. Como diz Irving Yalom (2002),“A terapia é engrandecida se o terapeuta entra precisamente no mundo do paciente. Os pacientes se beneficiam imensamente simplesmente através da experiência de serem vistos por completo e compreendidos por completo.” (p.18)Por isso, creio que não deva estar tão errada ao responder à simples questionamentos com um “Sim.” Às vezes as coisas são tão simples que somos incapazes de compreender a situação com clareza. Peyton (2016) compara a harmonia da sintonização a um violoncelo vibrando afinado com outro violoncelo. Diz ela que quando duas pessoas se encontram intencionalmente nas funções de facilitador/cliente em um Trabalho de Constelação, ambos os “instrumentos” ressoarão:“Isso é o que o cérebro humano ama. Ama tocar sua música e saber que há outro ser humano que está ouvindo sua música.” (p. 62)Gabor Maté 2 (2003) vai além, dizendo que nossa própria sobrevivência depende de nossos relacionamentos pessoais: “O funcionamento fisiológico dos seres humanos é inseparável – mesmo na teoria, quiçá na prática – as conexões emocionais e sociais que nos ajudam a nos mantermos.” (p.193)Há mais a ser dito na próxima sessão sobre o papel da comunhão e do contato social e físico no contexto da recuperação do trauma.
Trauma“Não nos curamos no isolamento, mas em comunhão.” (S. Kelley Harrell, 2012)É difícil para mim escrever sobre trauma. Tenho que trabalhar mais arduamente e prestar mais atenção ao colocar as palavras. Há menos fluxo e as palavras não aparecem facilmente. Estou ciente de que tenho que escrever de maneira mais criativa para trazer melhores resultados ao que desejo dizer. Repasso e edito estas palavras, tentando extrair seus significados. Provavelmente, há uma outra camada, ou mesmo uma antiga e hesitante aparecendo, como um tesouro sendo desenterrado enquanto que as lágrimas do tempo removem as camadas de terra e revelam uma dor oculta. O trabalho de constelação certamente não é uma viagem fácil. Uma vez que o trauma está no Campo do lado direito do cérebro, ele é difícil de ser expresso em palavras. Van der Kolk (2014) diz:“A inteligência emocional começa ao rotularmos nossos próprios sentimentos e a nos sintonizarmos às emoções das pessoas a nosso redor.” (p. 354)A denominação disso é a verdadeira batalha. Peyton e Van der Kolk explicam como a memória é afetada pelo trauma, mas há mais do que isso. Peter Levine descreve como o trauma pode conduzir a uma resposta incompleta e solidificada. Enquanto os seres humanos interpretam o trauma como uma ameaça à vida, nós naturalmente nos embrenhamos no equilíbrio gélido de um animal ameaçado por um predador, nos fingimos de morto e aguardamos pelo momento exato para pararmos de fingir e escapar. Às vezes nosso cérebro racional se sobrepõe às nossas respostas instintivas ao trauma, e somos levados a um estado de congelamento. Pode ser que deixemos esse estado muito tempo depois, talvez nunca consigamos, e se não tentamos ativamente deixá-lo, ficaremos presos e em sofrimento. Felizmente, de acordo com Levine (1997):“A cura do trauma é um processo natural que pode ser acessado por meio de uma consciência interior do corpo.” (p. 34)O trabalho pessoal tem a ver com personificação, e este é o lugar da sintonização. Por isso, ser uma representante é uma experiência tão terapêutica para mim. O Campo sempre fornece uma fonte rica em materiais curativos. Como representante, estou ocupando meu corpo inteiramente. Se estou incorporada e sintonizada no papel da facilitadora, posso facilmente perceber o momento em que o cliente entra demais em sua história. Utilizar minhas próprias respostas corporais é crucial para entender o que está acontecendo com o cliente e às vezes me é útil levantar essas questões com ele e ponderar suas respostas para saber se são relevantes. Sempre há o risco de as respostas corporais serem mais minhas do que do cliente. Neste caso, podemos explorar por que estou tendo tais respostas e descobrir se, de fato, estou representando alguém que faz parte de seu Sistema. Se conseguimos resolver essa questão, podemos trazer um representante, deste modo possivelmente retirando a minha necessidade de representar enquanto facilitadora. Quando relato o que está acontecendo comigo fisicamente pode ajudar a trazer o cliente para seu próprio corpo.Van der Kolk (2014) ressalta a necessidade de o cliente se sentir seguro e a importância de estar incorporado a fim de oferecer um receptáculo:“É preciso encontrar alguém em quem você confia o suficiente para acompanhá-lo, alguém que possa seguramente conter seus sentimentos e ajudá-lo a ouvir as dolorosas mensagens vindas de seu cérebro emocional. É necessário um guia que não teme seu terror e que consiga conter sua mais obscura ira, alguém que possa garantir sua integridade enquanto você explora as experiências fragmentadas que teve que manter em segredo de você mesmo por tanto tempo.” (p. 211) A Constelação Familiar oferece uma conexão humana de irmandade, comunhão no grupo e interação social. Certamente, em um grupo de treinamento isso é palpável, porém mesmo em um curto workshop o estímulo do grupo produz resultados curativos profundos. Maté (2003) enfatiza a importância da família, conexões sociais e comunitárias para a saúde e bem-estar: “Os seres humanos, como espécies, não evoluíram como criaturas solitárias, mas como animais sociais cuja sobrevivência se pautou em conexões emocionais poderosas entre famílias e tribos.” (p. 189)
Para Levine (1997), comunhão é essencial na recuperação do trauma, e ele explora tradições xamânicas para ilustrar:
“O Xamanismo reconhece que interconexões profundas, apoio e coesão sociais são atributos necessários na cura do trauma.” (p. 59)
Van der Kolk (2014) vê as relações próximas como uma força medicinal e questiona o uso do modelo “doença mental” e subsequente uso de drogas psiquiátricas em casos de TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático): “Reestabelecer relacionamentos e comunhão é fundamental no reestabelecimento do bem-estar.” (p. 38)
A chave da cura do trauma parece estar na comunhão. O isolamento tão predominante em sociedades modernas previne uma recuperação profunda. Se nossas relações em nossa família de origem são difíceis, temos uma oportunidade nas Constelações Familiares de liberar nosso trauma e permitir o fluxo de amor.Contenção “Esta consciência não está ligada a meu corpo, mas meu corpo está ligado a esta consciência.” Gabrielle Roth, fundadora da Dança dos 5 Ritmos (1997) Van der Kolk fala a respeito do fato de que pacientes de trauma geralmente não conseguem sentir os limites de seus próprios corpos, então sugere a ajuda de um massoterapeuta para auxiliar nesses trabalhos. Pacientes que sofrem de trauma dependem da contenção para aprender a entender seus limites e serem capazes de funcionar no mundo. O modelo de contenção de Wilfred Bion e o modelo de fixação de Winnicott foram aplicados às relações entre cliente e terapeuta.:“Eu definiria a teoria de contenção como sendo a capacidade do indivíduo (ou objeto) de receber em si mesmo projeções de outro indivíduo, que então poderá sentir e utilizar como (suas) comunicações, transformá-las e, finalmente, devolvê-las (ou transmiti-las de volta) ao sujeito de uma forma modificada. Eventualmente, isso pode possibilitar à pessoa (uma criança de início) sentir e tolerar seus próprios sentimentos e desenvolver a capacidade de pensar.” (Riesenburg-Malcom, R., 2006, p. 166)Em meu próprio desenvolvimento, tive que explorar profundamente a contenção corporal. A contenção ajuda a me sintonizar como facilitadora e como representante. Dentro do círculo consigo me dissociar ou ser completamente atraída pelo Campo se não estiver me sentindo contida.Utilizando nossa consciência de como as coisas estão mudando psicologicamente, nos dá informações sobre nossas reações em situações de estresse. Enquanto bebês, precisávamos ser abraçados para nos sentirmos seguros a fim de nos mantermos vivos e, no futuro, enfrentarmos o mundo. Se não experimentamos esta contenção por parte de nossas mães quando bebês e crianças, podemos ter uma maior necessidade de contenção quando adultos. Os pais recebem conselhos contraditórios de como cuidar de seus filhos. Um professional de saúde pode nos orientar a deixar o bebê chorando em um outro quarto, enquanto que nossos instintos nos mandam segurar a criança, mas nossa confiança é corroída por forças exteriores, e uma criança não deve experimentar a contenção que a faz se sentir segura e, de fato, a protege de perigos. Quando uma mãe está se recuperando do trauma de dar à luz, ela pode estar ainda mais suscetível a conselhos externos e perder a confiança em sua sabedoria interior. No meu caso, nasci em um hospital e fui levada à enfermaria. Era trazida de volta até minha mãe a cada quatro horas para ser amamentada. Sem surpresa, minha mãe não produzia leite suficiente e, após uma semana, estava ficando desidratada e desnutrida. Além disso, minha mãe teve de retornar ao trabalho quando eu ainda tinha três meses de vida. Houve pouca ou nenhuma contenção em minha tenra infância, o mesmo acontecendo a muitos de nós nascidos nas décadas de 60 e 70.
Quando participei de um exercício de contenção pela primeira vez, foi revolucionário3. Tinha pegado no sono durante a constelação anterior (o que, surpreendentemente, foi um IROM) e quando acordei, tudo que conseguia ouvir era o facilitador perguntando se estavam todos prontos para prosseguir. Não me sentia, de maneira alguma, pronta. Me sentia muito desligada e mal conseguia falar e pronunciar as palavras: “Não! Não estou pronta!” que, curiosamente, o facilitador não conseguia me ouvir dizer. Era quase como se eu tivesse fisicamente deixado a sala. Sentada entre duas pessoas que me continham com as laterais de seus corpos encostados ao meu, passei do sentimento de completa desconexão e de estar fora do meu corpo, a sentir meu coração calmo e meus pés firmes no chão. Ultimamente, utilizo minha poltrona quando preciso de contenção.
De um lugar de contenção, podemos começar a observar o mundo, da mesma maneira que a criança que se sente segura o suficiente para se afastar progressivamente de sua mãe. (Winnicott, D.W, 1965)
Personificação“Atenção e consciência e ação são a inteligência da alma.” (Roth, G. 1997)Para me sintonizar com o cliente, preciso me desconectar do meu cérebro pensante (esquerdo) e me conectar ao meu corpo e meus sentidos. Levine fala a respeito de “sensação sentida” na experiência somática. Ele argumenta que para que os animais sobrevivam no mundo, eles devem estar sintonizados a seu ambiente e devem estar cientes dos predadores. Para ser uma representante, eu também tenho que estar sintonizada com o ambiente para permitir a percepção precisa das sensações e sentimentos da pessoa que estou representando. Isso não foi o mais difícil de aprender em minha jornada de constelações, mas sei que eu e meus colegas lutamos para sair de nossas mentes quando facilitamos e, certamente, isso pode ser problemático para o cliente. Creio que minha experiência como homeopata e também minha prática da dança dos 5 Ritmos tenham ajudado. Gabrielle Roth, (1997) relata:“É preciso disciplina para desenvolver atenção e consciência. Para mim, tal disciplina é parte de minha dança. Um dos maiores desafios é manter minha consciência em meu corpo, não em minha mente, onde ela pode ser uma distração de milhões de formas.” (p. 29)A compreensão da teoria de Sistemas e Campo ajuda a exercitar meu músculo de sintonização. Estou constantemente observando a vida por esta lente e ela me força, de certa forma, a me adaptar a meu ambiente e minhas experiências. Além disso, apenas por estar envolvida no Trabalho de Constelação e na dança dos 5 Ritmos é útil. Acolho as oportunidades de representar bem como de facilitar para praticar o estar completamente sintonizada e tento estar ciente das minhas relações e de meus quadris e presente neles.
Por exemplo, quando retornava do meu módulo final de treinamento, meu carro quebrou. Dois gentis rapazes encostaram e me ajudaram a chegar até o estacionamento mais próximo.
A alguns dias do treinamento, meu carro também quebrou. O mecânico que me socorreu retirou o coração de meu carro (filtro de combustível), que tinha um vazamento em uma válvula, e tentou consertá-lo com um ferro de solda, um bisturi e bicarbonato. Eu estava chorando quando ele chegou, de exaustão, mas também por causa das tentativas de chegar à casa de meu namorado para resolver a discussão que tivemos no começo da semana e para me despedir antes de partir para o treinamento. O mecânico foi gentil, me perguntou se estava bem; me disse que não poderia me ajudar com alguns de meus problemas, mas que iria ajudar a pôr meu carro para funcionar. E o fez. Quando a solda não funcionou, ele foi até uma loja e voltou com supercola. Ele passou aproximadamente duas horas trabalhando no coração do meu carro e me confortando, verificando regularmente se eu estava bem. O filtro de combustível se parece com um coração, e a cada vez que ele o retirava, encharcado de diesel, com seus tubos pendurados, era lembrada disso.
Muito bem, hoje, quando Al, o novo mecânico, chegou, ele apenas colocou a chave na ignição e o carro ligou imediatamente. Ele me seguiu até a casa do meu namorado, aguardou enquanto pegava meu cachorro e disse que achava que era seguro voltar para casa. Meu confiável automóvel me acompanhou por dois treinamentos, ida e volta, de um lado a outro na longa viagem de Londres a Somerset, mês após mês, e nunca me deixou na mão. E agora é hora de dizer adeus a meu carro e também a meu grupo de treinamento, os quais terão um lugar em meu coração. Tão conveniente.
Hellinger (1998) argumenta que tem a ver com o se abrir e permitir que o que quer que seja entre, o que certamente depende muito do Campo. É por isso que é realmente impossível planejar um workshop, porque você não sabe conscientemente o que estará no Campo no momento: “Ver não é algo que possamos fazer acontecer. Quando me abro para alguém, geralmente fico completamente surpreso com o que vejo. Muitas vezes vejo coisas que nunca poderia ter imaginado. Sempre sinto medo e calafrios ao ver, mas se fujo do que estou vendo, se me contenho – mesmo que por medo de machucar alguém – algo se fecha em minha alma, como se tivesse abusado de algo precioso.” (p. 206)Sempre penso que meu sono é perturbado; posso ficar doente ou ficar agitada ou emotiva por algumas semanas antes de me envolver em um workshop, onde há uma quantidade significativa de trabalho por vir. Não sei conscientemente, mas inconscientemente, meu corpo sabe. Meu corpo é um barômetro eficaz no trabalho de Constelação. Muitas vezes passei tossindo durante todo um workshop, somente para perceber que a tosse passava quando era escolhida para representar ou quando deixava o workshop. Ainda estou explorando os detalhes do significado da tosse, mas tenho uma ideia de que provavelmente é causada por uma dor não manifestada e/ou ira, que não pode ser confortavelmente contida no genuíno cenário de uma Constelação. Também acredito que meu sono possa ser massivamente perturbado durante um módulo de treinamento e, às vezes, posso literalmente ficar acordada a noite toda. Frequentemente me surpreendo por me sentir bem apesar da falta de sono. Na verdade, acredito que o motivo seja me manter mais focada no meu corpo e fora da minha mente, uma vez que não consigo pensar logicamente quando estou tão cansada!Richard Strozzi Heckler (1984), pai do Coaching Somático, diz que nosso aprendizado é melhorado quando estamos em nossos corpos. Muitos de nós somos alunos sinestésicos, ou talvez tenhamos sintomas de TDAH e precisamos nos mover para sermos capazes de nos focarmos e concentrarmos. Van der Kolk (2014) enxerga a conexão entre abuso e diagnóstico de TDAH em crianças. Mesmo para alunos visuais, é válido se movimentar para enxergar as coisas de uma perspectiva diferente: “Quando estamos incorporados, nos tornamos aprendizes. Podemos aprender com situações, com nossas experiências, com a vida. Se não vivermos em nossos corpos, que é a base de nossas experiências, somos capazes somente de classificar o aprendizado e reagir de forma mecânica.” (p. 58) A personificação é sempre criativa, informativa, nos deixa acessível ao outro, e é fundamentalmente curativa. Quando uma pessoa se coloca no lugar de cliente, traz com ela seus ancestrais e todos os sistemas dos quais ela pertence. Portanto, como facilitadores, não estamos apenas nos sintonizando ao cliente como indivíduos, mas nossos próprios sistemas estão se sintonizando aos do cliente: “O facilitador entra em sintonização. Este é o lugar onde a intencionalidade do facilitador começa a sustentar o sistema do cliente. Assim que há sucesso em se sintonizar com o cliente sentindo que algo está sendo capturado, então a dor se transforma em ressonância.” (Peyton, S., 2016, p. 62)Os lugares do facilitador e do cliente são espaços lotados. Aprendi que ressonar com sistemas similares aos meus pode ser intenso demais para mim como uma nova facilitadora. Por exemplo, estava ministrando um workshop, e o pai austríaco da cliente tinha sido mantido prisioneiro em um campo de prisioneiros de guerra nos últimos anos da guerra. Meu próprio pai é um judeu húngaro que passou a Guerra escondido em Budapeste. No entanto, descobrimos que um capitão do exército húngaro protegia os 2000 judeus que estavam escondidos com meu pai e ele aparentemente utilizou seus contatos no exército alemão da Primeira Guerra Mundial para ajudar. De qualquer maneira, a Segunda Guerra Mundial obviamente constitui grande parte dos sistemas de meus clientes e do meu próprio sistema e fui apanhada no Campo da Constelação. Após o workshop, fiquei doente, com febre alta e estava totalmente destruída. Este foi um dos meus primeiros workshops, e estou ficando cada vez mais capaz de reconhecer e de agir para evitar que isso aconteça. Técnicas como sair fisicamente do Campo e verbalizar o que está acontecendo comigo, ajudam. Não estou sugerindo que a febre não é parte do processo curativo, mas, particularmente, não quero ficar doente todas as vezes que eu facilitar ou participar de um workshop!“Há uma incrível beleza desconhecida na experiência de estar em um Sistema no qual estamos ligados a outros.” (Peyton, S., 2016, p. 62)Portanto, apesar dessa experiência aparentemente negativa para mim, na verdade, a Constelação foi muito ponderosa, e a cliente se inscreveu efusivamente para o próximo workshop. Estou segura de que há grande aprendizado para mim com esta cliente, e profunda cura potencial para ambos os nossos sistemas familiares.A natureza oferece um caminho maravilhoso para o desenvolvimento da sintonização. Quando somos crianças, quando estamos personificados boa parte do tempo, muitos de nós têm sorte suficiente de se lembrar das horas de magia as quais éramos imersos lá fora, explorando as pequenas coisas, construindo barragens e subindo em árvores. A personificação que experimentei na natureza está profundamente sintonizada e conectada e me tira completamente da minha mente. Sou sempre grata ao meu cachorro que me força a encarar a natureza todos os dias. Enquanto estou conectada a este imenso sistema, posso apreciar o quão pequena sou nesse enorme esquema de coisas. (Burge, Dan TKF issue 31, Jan 2018, p. 50)
Toque“O toque parece ser tão essencial quanto a luz do sol.” Diane Ackerman4
O toque é um assunto delicado. Mas se evitamos o toque, ou não nos sintonizamos à necessidade de uma pessoa ao toque em uma Constelação Familiar, nos distanciamos profundamente de sua e de nossas almas. O toque é tão fundamental à vida que não sobreviveríamos sem ele. Diversos estudos mostram que crianças privadas do toque materno na infância têm crescimento e desenvolvimento retardados. (Montagu, 1905) O trabalho de Bowlby e Winnicott enfatiza a importância dos primeiros toques por nossas mães ou cuidadoras. A Constelação Familiar oferece uma resolução nessa área, entre outros métodos, com o IROM. Como representante, o toque revelará ligações ocultas nos sistemas quando as palavras não forem capazes de fazê-las:“Gestos de conforto são reconhecíveis universalmente e refletem o poder curativo do toque sintonizado. O toque, a ferramenta mais elementar que temos para nos acalmarmos, é proscrito na maioria das práticas terapêuticas. Mesmo assim, você será incapaz de se recuperar por completo se não se sentir seguro em sua pele.” (Van der Kolk, Bessel, 2014, p. 215)Como facilitadora, a sintonização com o cliente é fundamental quando nos tocamos. O toque não justificado pode desencadear reações imensas, e o cliente pode perder a confiança. Por isso, devemos realmente nos sintonizarmos ao cliente e nos certificarmos de que nosso toque será útil, fundamentado e irá gerar confiança. No entanto, evitar o toque completamente furta de nosso cliente o potencial de liberar tensão e conter emoções em um ambiente contido e seguro.Licia Sky diz:“Devemos encontrar seu ponto de resistência – o lugar onde há mais tensão – e encontrá-lo com igual quantidade de energia. Isso libera as tensões congeladas. Não pode haver hesitação; a hesitação transmite uma falta de confiança em si mesmo. Movimentos lentos, sintonização cuidadosa ao cliente são diferentes de hesitação. Devemos encontrá-lo com tremenda confiança e empatia, deixe que a pressão de seu toque encontre as tensões que estão encapsuladas em seu corpo.” (Van der Kolk, Bessel, 2014, p. 216)A hesitação pode acabar com a confiança e se tornar contra produtiva. Por isso, é preferível não perguntar se está tudo bem em tocar, o que sugere falta de confiança e incerteza, é melhor estar profundamente sintonizada e saber intimamente o momento em que o toque é necessário ou útil.Dentro do grupo, me sentia muito sensibilizada por um IROM que presenciei em uma Constelação. As lágrimas escorriam livremente pela primeira vez em muito tempo, e mesmo após a Constelação eu continuei em minha cadeira, completamente imersa nos sentimentos maravilhosos que emergiram pela liberação de emoções e por minha identificação com a Constelação. Logo após este episódio, alguém se aproximou e se sentou ao meu lado e me tocou. Seu toque, apesar de parecer afável, imediatamente invadiu meu fluxo de sentimento e interrompeu abruptamente o curso de minhas lágrimas. Apesar de ter lhe pedido que parasse, lamentavelmente o momento havia evaporado, e eu senti que a oportunidade de cura em um nível mais profundo havia passado. Nessa situação, se perguntada se tudo bem ser tocada teria sido mais útil, uma vez que quando alguém está no papel de facilitador, gerar confiança é primordial. De qualquer forma, essa foi uma ótima lição a respeito do toque. O toque pode ajudar imensamente em algumas situações. Em outras, ele tem efeito contrário. É importante para o facilitador instruir o grupo sobre o toque e seus limites, mas também é possível que estas palavras não sejam ouvidas.A sintonização é realmente a única maneira de sabermos se está tudo bem em tocar, ou pedir para tocar. Por vezes perguntar se está tudo bem em tocar não trará respostas verdadeiras. O cliente pode dizer que sim com o intuito de agradar, ou para estabelecer uma conexão com o facilitador, no qual enxerga uma figura paterna, mesmo que isso represente trair seus verdadeiros sentimentos. Em uma sessão de prática com meu grupo de instrução, a facilitadora havia sido abusada sexualmente quando criança, e na entrevista de abertura com a cliente, que também havia sido abusada sexualmente, a facilitadora claramente não estava sintonizada. Isso ficou claro quando a facilitadora tocou a cliente em uma tentativa de lhe dar base, o que provocou uma forte reação defensiva. Elas estavam juntas em um Campo de violação:“Enquanto o contato humano e a sintonização são a fonte da auto regulação fisiológica, a promessa de proximidade geralmente evoca o medo de se machucar, de ser traída e de ser abandonada. A vergonha tem nisso um importante papel: ‘Você descobrirá o quão podre e repulsivo sou e irá me descartar assim que me conhecer de fato’. Traumas não resolvidos podem cobrar um alto preço nos relacionamentos. Se o seu coração ainda está partido porque você foi atacada por alguém a quem amou, você provavelmente estará preocupada em não se machucar novamente e terá medo de se abrir para alguém novo. Na verdade, você poderá tentar machucar alguém inconscientemente antes que tenha a chance de machucá-lo.” (Van der Kolk, Bessel, 2014, p. 211)
Representação“Quando o ego toma conta do espetáculo, somos meros atores. Quando a alma está empoderada, temos um repertório infinito de possíveis papeis.” (Gabrielle Roth, 1997)Por mais que o cliente necessite confiar no facilitador, o facilitador por sua vez também precisa confiar nos representantes. Para mim, isso significa estar atenta a quando os representantes estão deixando o lado esquerdo do cérebro interferir na representação. Obviamente, isso está no Campo e deve ser reconhecido como tal. Contudo, o quão útil seria se todas as representações fossem guiadas por ego e informações de cura? Como facilitadores temos a obrigação de instruir novos representantes sobre arte da representação. Estamos interferindo no Campo ao fazer isso? Gosto de iniciar meus workshops com um rápido exercício que aprendi com Paul e Lynn Stoney, mas sempre o faço às cegas. Trabalhando em pares, peço a uma pessoa que seja o representante de uma questão ou problema para a outra pessoa. Então eles trocam de papeis e dão feedback um ao outro, deixando com que o outro saiba o que representaram.A sintonização parece ser relativamente fácil para os representantes. Novos representantes, na maioria das vezes, ficam surpresos com a força com os atributos do membro da família ou com o conceito que estão representando emerge. Não obstante, a personificação é o segredo. É melhor que novos representantes recebam instruções básicas de como representar, isto é, se sintam no papel e foquem nos seus impulsos corporais internos. Por fim, se houver um movimento, devem segui-lo. A sintonização geralmente acontece no momento em que o representante é colocado. Por outro lado, um cliente, que pode ser interrompido por suas histórias, pode necessitar de ajuda para que personifique e se sintonize. Por outro lado, A cliente, que pode ser interrompida por sua própria história, pode precisar de orientação para ficar incorporada e sintonizada. O ato de representar é frequentemente estarrecedor:“Por exemplo, se escolhemos representantes do pai, da mãe e dos filhos e os colocamos em relação uns com os outros e não interferimos, e eles estão centralizados; logo eles serão tomados por um movimento irresistível e se sentirão exatamente como as pessoas que estão representando, então algo de repente vem à tona.” (Hellinger, B., 2006, p. 6)Não sabemos como esse mecanismo funciona. Alguns participantes enxergam na neurociência a explicação. Jean Boulton (2006) diz que é uma experiência de se sentir no papel:“Estou ali, em pé, como representante e posso ter fortes sentimentos; posso me sentir muito triste, posso precisar me sentar ou sentir forte aversão a outro participante. Às vezes tenho forte consciência. Isso se chama percepção representativa.” (p. 13)Ruppert se refere à percepção representativa como sendo um canal de informação. Como representantes, estamos nos sintonizando ao que Albrecht Mahr5 denominou: ‘O Campo do Conhecimento’:“As constelações sugerem a presença de um campo de conectividade entre membros de uma família que se estende além dos limites do corpo físico. Os representantes normalmente reportam que se sintonizaram à ressonância dos membros da família independente das circunstâncias da relação e independente do fato de estarem vivos ou mortos. Creio que essa conexão seja mais que resíduos de memória e do que um produto das funções do cérebro.” (Booth Cohen, D., 2006, p. 43)Nossos sentidos são essenciais no papel de representantes, sejam eles com o propósito da sintonização, ou para transferir informações importantes ao facilitador e ao cliente. Se um representante sente frio, por exemplo, isso pode significar a presença da morte, e calor pode representar raiva suprimida. A maneira pela qual ‘ouvimos’ um som como o ranger do assoalho, será influenciada pelo Campo e fornecer mais informações. Um rangido pode ser um som de um passo em uma escada, uma porta se abrindo ou mesmo alguém pendurado dependendo do Campo. Já tive relatos de representantes sentindo cheiro de pão sendo assado, mesmo não havendo nenhum forno por perto, e tal informação foi útil para a Constelação. Evidentemente que a maneira que vemos as coisas pode variar entre os representantes, e isso pode fornecer materiais significativos. Da mesma maneira, a interpretação do toque dentro da Constelação pode ser entendida como delicada ou firme e assustadora para o recipiente: “Como representantes, percebemos fisicamente como é estar em um lugar específico em um sistema. Sentimos calor, frio, dor, alegria, indiferença etc.” (Lingg, H. K., 2006, p. 27)Quem somos escolhidos para representar é também significativo. Muitas vezes o papel irá refletir questões de nossas próprias vidas. Por exemplo, posso ser frequentemente escolhida para representar alguém cujo filho tenha morrido, caso meu filho tenha morrido também. Ou mesmo uma pessoa adotada pode repetidas vezes ser escolhida para representar uma pessoa excluída, no mesmo ou em diferentes workshops. Isso nos dá a oportunidade de encarar e curar nossos traumas não resolvidos. Ao sermos capazes de deduzir informações a respeito de como o representante se sente, abrimos a Constelação e damos a ela significado. A percepção representativa é crucial para um trabalho de Constelação. Mais do que isso, no entanto, ser escolhido como um representante e incorporar tal papel, proporciona cura profunda ao participante do workshop. É por isso que não acredito na mudança em diferentes escalas para portadores de questões e representantes ou membros do círculo. Fiquei muito surpresa ao ler que alguns facilitadores acreditam que representantes, por vezes, podem apenas selecionar fatores relacionados a suas questões quando representando. E quanto ao Campo? O representante que somos escolhidos para ser é parte de nosso próprio Campo, bem como do Campo do cliente, e parece que não podem ser separados:“Alguns consteladores distinguem a consciência do representante da consciência sistêmica. Para eles, os representantes nem sempre percebem algo ou oferecem informações que são relevantes às questões do cliente, mas sim às suas próprias questões. Logo, estes consteladores podem utilizar objetos de madeira ou bonecos playmobil e acreditar que eles oferecem mais informações sistêmicas do que as pessoas.” (Roevens, J. 2009 p. 35)A Constelação Familiar proporciona cura a todos os participantes do workshop, até mesmo do facilitador, por meio da personificação – a qual focamos durante todo o workshop – e por meio do fenômeno do Campo. O trauma é consciente ou inconscientemente liberado quando fazemos isso.ConclusãoPara mim, o aspecto mais importante da relação terapêutica em uma Constelação Familiar é a habilidade do facilitador e dos representantes de estarem personificados e sintonizados. Em outras terapias há também a necessidade de algum nível de sintonização. Talvez a falta de sintonização pode ser compensada por meio de uma história, uma conversa e de outras atividades ligadas ao lado esquerdo do cérebro. Seria perfeitamente possível, por exemplo, realizar uma consulta homeopática e apenas focar nos sintomas, história e medicamentos e se sintonizar ao paciente apenas nos níveis mais superficiais enquanto todos os fatos são colhidos. Se o facilitador e o cliente não estão sintonizados em um workshop de Constelação Familiar, a Constelação provavelmente estará fragmentada, menos útil e menos informativa. A representação acontece do lado direito do cérebro:“Quando temos a intenção, planejamos ou realizamos uma ação, esta atividade se revela estar no hemisfério esquerdo, mas a representação de ações de outras pessoas está no hemisfério direito.” (Altman, J., 2006, p. 22) O lado esquerdo do cérebro é conhecido por ser o lugar dos sentimentos, da intuição, da personificação, do trauma e da cura. Quando representantes acionam o lado esquerdo de seus cérebros e encenam, podem ainda estar a serviço do cliente uma vez que é parte do Campo. No entanto, pode se perder uma grande oportunidade de uma cura mais profunda para ambos cliente e representante. Um representante que está personificado e agindo intuitivamente pode contribuir no desemaranhar de dinâmicas e traumas ocultos.Traumas de todos os tipos são armazenados no corpo e ocorrem no lado direito do cérebro. A Constelação Familiar produz cura ao libertar somaticamente os traumas. Colocar e manter clientes e representantes em seus corpos, e permanecendo em meu corpo como facilitadora, é a chave para uma Constelação bem-sucedida e significativa.Notas:1. A dança dos 5 Ritmos é um espaço livre no qual os indivíduos podem se mover livremente de acordo com um conjunto de ritmos que vão do fluido ao staccato, ao caos, ao lírico e finalmente à quietude.2. Gabor Maté é um palestrante dos impactos perpétuos dos traumas de infância em pessoas com doenças físicas e mentais. Escreveu inúmeros livros e aparece frequentemente no YouTube.3. Um exercício introduzido por nossa instrutora Barbara Morgan que intuitivamente sentiu a necessidade desse tipo de contenção quando fazia seu próprio trabalho pessoal para impedir que se dissociasse.4. https://www.brainyquote.com/quotes/diane_2 _3779955. https://www.faustfamilyconstellations.com/trusting-knowing-field“O ‘campo do conhecimento’ é um termo criado pelo alemão Albrecht Mahr, um médico, psicanalista e líder no trabalho de Constelação Familiar. O ‘campo do conhecimento’ é o campo de energia da constelação. Este campo de energia informa ao facilitador, aos representantes, ao cliente e àqueles observando a constelação o que pode estar afetando a consciência do cliente. É esse conhecimento informado que guia as constelações.” Autor: Jamy

REFERÊNCIASAltman, J. (2006) Mirror Neurons, Reflections on Franz Ruppert’s Article in Issue 7 of The Knowing Field. The Knowing Field International Constellations Journal. Issue 8. Frome, Somerset, UK.Booth Cohen, D. (2006) I Carry Your Heart (I Carry it in My Heart), Family Healing in Prisons, The Knowing Field International Constellations Journal, Issue 8. Frome, Somerset, UK.Booth Cohen, D. (2010) Family Constellations and the Kabbalah. The Knowing Field International Constellations Journal. Issue 15. Frome, Somerset, UK.Boulton, J. (2006) The Knowing Field International Constellations Journal. Frome Issue 8, Somerset, UK.Hellinger, B., Weber, G., Beaumont, H. (1998) Love’s Hidden Symmetry: What Makes Love Work in Relationships. Zeig, Tucker & Co, Phoenix, Arizona, USA.Hellinger, B., (2006) A Better World, Interview with Bert Hellinger. The Knowing Field International Constellations Journal, Issue 8. Frome, Somerset.Kelley Harrell, S. (2012) Reader’s Companion for Gift of the Dreamtime – Awakening to the Divinity of Trauma. Soul Intent Arts, North Carolina, USA.Kolk, Bessel van der (2014) The Body Keeps the Score: Mind, Brain and Body in the Transformation of Trauma. Penguin Books Ltd., UK, Kindle Edition.Levine, P. (1997) Waking the Tiger: Healing Trauma. North Atlantic Books, California, USA, Kindle Edition.Lingg, H. K. (2006) Management Constellation, Using Constellations to Solve Management Problems, The Knowing Field International Constellations Journal, Issue 8. Frome, Somerset.Maté, G. (2003) When the Body Says No: Exploring the Stress-Disease Connection. John Wiley & Sons Inc., Hoboken, New Jersey, USA.Montagu, Ashley (1905) Touching: the Human Significance of the Skin. Harpers, New York, USA.Peyton, S., (2016) The Nine Domains of Brain Integration and Constellations. The Knowing Field International Constellations Journal, Issue 27. Frome, Somerset, UK.Riesenburg-Malcom, R. (2006) Bion’s Theory of Containment in Bronstein. C. Kleinian Theory: A Contemporary Perspective. Whurr, London, UK.Roth, G. (1997) Sweat Your Prayers. MPG Books Ltd, Cornwall, UK.Roevens, J. (2009) Towards some ‘Best Practice’ for Organisational Constellations Work, The Knowing Field International Constellations Journal, Issue 14. Frome, Somerset, UK.Ruppert, F. (2006) Mirror Neurons, Reflections on Franz Ruppert’s Article in Issue 7 of The Knowing Field. The Knowing Field International Constellations Journal. Issue 8. Frome, Somerset, UK.Strozzi Heckler, R. (1984) The Anatomy of Change: A Way to Move Through Life’s Transitions. North Atlantic books, California, USA.Winnicot, D.W. (1965) The Maturational Processes and the Facilitating Environment. Karnac Books Ltd, New York, USA.Yalom, Irvin D. (2002) The Gift of Therapy (Revised And Updated Edition): An open letter to a new generation of therapists and their patients. Little Brown Book Group. Kindle Edition.
Poppy Altmann tem praticado e ensinado a homeopatia por mais de 15 anos nos setores voluntário e privado, mais recentemente se especializando em questões de saúde mental, dependência e distúrbios alimentares. Ela é muito intuitiva, empática e uma curadora inteligente. Uma aprendiz avançada dos treinamentos de Barbara Morgan, conduz workshops de Constelação Familiar e oferece constelações individuais no sudoeste de Londres. Original de Richmond-upon-Thames na Grande Londres, Poppy ainda vive com suas duas filhas jovens adultas e seu cachorro nesta linda parte do mundo.poppyaltmann@me.comwww.poppyaltmann.com

A Percepção Representativa e a Natureza da Realidade (Alemka Dauskardt)

REFLEXÕES PESSOAIS

Alemka Dauskardt

“Há algo no universo – uma mente, um princípio ou uma inteligência – que comanda e ‘in-forma’ o fenômeno que estrutura e mantém unido o fenômeno que observamos no mundo.” Ervin Laszlo(2017)

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria ao homem tal como é: Infinito.” William Blake (1994)

Eu estimo o convite do editor para que os consteladores foquem no fenômeno da percepção representativa nas constelações nessa edição do periódico. Como um pilar, no qual toda a prática da Constelação se baseia, é surpreendente que artigos e discussões a respeito do tema sejam tão escassos. Provavelmente pelo fato de o tema ser muito difícil de ser abordado. Ou talvez pode-se argumentar que a exploração desse fenômeno pela maioria dos consteladores foi, e continua sendo, tratada do ponto de vista fenomenológico: chegando a nosso conhecimento por meio da experiência real de incontáveis constelações.

A atitude adotada por Bert Hellinger nos primeiros estágios do desenvolvimento, encorajou tal prática e, enquanto eu estava aprendendo sobre constelações, muitas perguntas surgiram em minha mente racional, tais como: “Como isso funciona?” Tais perguntas eram respondidas na seguinte linha: “Não sabemos como funciona, mas sabemos que funciona. Não conseguimos explicar, e não é necessário saber como funciona para que seja benéfico.” Essa era uma abordagem muito pragmática, que via o trabalho se espalhando enormemente, e que, de fato, tinha beneficiado muitas pessoas. Também nos manteve focados no fenômeno em si, ao invés de ficarmos o intelectualizando. 

Mas a prática da constelação, que tem se espalhado por toda parte, invariavelmente, traz à luz questões mais amplas a respeito da natureza da consciência e da natureza da realidade, da natureza do mundo em que vivemos. Me lembro também de ouvir Hellinger dizer no início que uma vez que nos abrimos à experiência da percepção representativa e a levamos a sério, toda nossa visão do mundo tem de mudar.

Constelações, Ciência e Espiritualidade

Aposto que muitos de nós ainda nos lembremos daquele momento em que vivenciamos a percepção representativa, que nos deixou perplexos e surpresos. Cada um de nós tendo que chegar a um acordo sobre as implicações do inegável fato testemunhado em cada constelação – como um estranho representando uma pessoa que não conhece autêntica e precisamente canaliza a energia da pessoa, da situação ou de dinâmicas relacionadas.

Até então, ficamos tão acostumados a este fenômeno que não o questionamos, ou mesmo imaginamos sua natureza. O problema é que esses fenômenos dos quais a Constelação depende, e os usa na verdade, são incompatíveis com as crenças amplamente aceitas sobre materialismo científico, no qual o mundo material que observamos com nossos sentidos é a única realidade possível.

Como nós, praticantes da constelação, lidamos com esta situação é uma questão importante a se considerar, especialmente à luz do frequente clamor visando maior aceitação de nosso trabalho. 

Alguns continuam a ignorar essas questões focando pragmaticamente na prática do trabalho. Outros se esforçam em realizar pesquisas e produzir ‘evidências científicas’ para o Campo do Conhecimento e para a eficácia do método.

Alguns tentam explicar a percepção representativa dentro dos mecanismos conhecidos de transmissão de informação, aceitos dentro de uma estrutura científica vigente, tal qual os neurônios-espelho (neurônios ativados tanto quando agimos quanto quando observamos a mesma ação realizada por outra pessoa, desta maneira ‘espelhando’ o comportamento do outro, como se o observador estivesse ele próprio agindo) ou a ressonância límbica (a ideia de que a capacidade de compartilhar estados emocionais profundos surge do sistema límbico do cérebro).

Alguns autores sugerem que “acredita-se que todas as representações são partes do estado psicológico do cliente”e que a constelação é “dessa forma… uma exploração intrapsíquica”na qual o representante está “ressoando com a mente inconsciente do cliente, que é seu trabalho.1

Ainda assim, outros sugerem que os representantes em uma constelação estão todos subconscientemente interpretando as orientações e posições do grupo e também reagindo a elas: “em outras palavras, captamos as informações através das posições espaciais dos representantes e através da interpretação dessa localização espacial por meio de nosso conhecimento da geometria social.(Michael Reddy, 2012)

Estas explicações ficam todas dentro dos modelos de compartilhamento de informações aceitos (e aceitáveis), aprendizado e desenvolvimento que podem ser acomodados nas disciplinas da neurociência, psicologia, sociologia, biologia e física, sem cruzar a linha do que a estrutura científica vigente permite e, portanto, acredito eu, não cumprindo a tarefa de capturar a verdadeira natureza da percepção representativa.

Tal compreensão desse e de outros fenômenos que observamos nas constelações são frequentemente acompanhados por um desejo de nos afastarmos dos aspectos ‘metafísicos’ ou ‘espirituais’ ou ‘xamânicos’ do método de constelação. Ainda assim, é precisamente nesses aspectos que o poder e a eficácia dessa prática se encontram. Acredito que nós, o Campo constelador, não deveríamos nos afastar disso, pois é o que dá à constelação sua força, mas, de preferência, deveríamos estar sempre na vanguarda da mudança de paradigma na visão do mundo, que é necessária para acomodar o fenômeno que testemunhamos. Esta é uma proposta ousada, mas se quisermos nos aproximar do entendimento dos aspectos essenciais da natureza da prática da constelação, não é necessária a criação de uma nova ciência – mas uma total mudança de paradigma.

Tal mudança já está sendo presenciada e estamos ouvindo algumas proeminentes vozes, mesmo no meio científico, clamando por isso. Uma revolução científica está perto de nós e acredito que o trabalho de Constelação pode ter um papel importante em moldar este novo e emergente paradigma, e nós, consteladores, não devemos temer entrar mais visivelmente nesse vasto mundo, saiamos do armário, sem temer sermos excluídos do cenário principal. Vivemos tempos emocionantes de grandes mudanças, e creio que as Constelações poderiam e deveriam estar na linha de frente dessas mudanças.

A visão científica materialista do mundo ocidental está cada vez mais cedendo à compreensão do Universo que é orgânico, auto organizável, holográfico, fractal e consciente, em constante movimento, guiado por uma força além da estrutura de tempo e espaço e que é, até hoje, um mistério para nós. 

Em alguns campos específicos, a ciência está se aproximando dos ensinamentos de muitos sistemas espirituais, como a filosofia Taoísta, o misticismo judeu, a mitologia hindu, e os ensinamentos de Buda e também da sabedoria ancestral de povos indígenas:

“Utilizando-se de seus corpos, mentes e espíritos a fim de juntar informações vitais a respeito do mundo, xamãs chegaram ao entendimento de que a epistemologia (como sabemos o que sabemos) está estreitamente ligada à consciência. Os xamãs compartilham o mundo e ganham conhecimento de maneira raramente compreendida por povos modernos: por meio de conhecimento participativo direto.”2

Apesar de os xamãs de todo o mundo saberem há milênios que os seres humanos são as ferramentas mais importantes disponíveis para se adquirir conhecimento, essas dimensões da vida não são reconhecidas no paradigma materialista atual. Tampouco possuem tais dimensões espirituais, em seu reconhecimento repousa a diferença crucial entre constelações e outras práticas relacionadas, como o psicodrama ou a escultura familiar e até se diferenciando da constelação individual ou nas escolas. O reconhecimento dessa dimensão spiritual é a marca da constelação, tal qual desenvolvida e ensinada por Bert Hellinger, seguida por muitos e também um ponto de partida de sua abordagem por outros:

“Tudo que existe, não se move de acordo com sua própria concordância, mas de acordo com o exterior. Todos os seres vivos, mesmo quando parecem se mover por si só, têm um início que não pode vir de dentro. Portanto, cada movimento de tudo que é vivo resulta de um movimento que veio do exterior… Cada movimento, especialmente cada movimento de um ser vivo, é um movimento calculado, consciente e intencional. Este conceito pressupõe consciência na força que move tudo. Em outras palavras, cada movimento é um movimento pensado. O movimento se inicia pois é pensado por essa força, e entra em movimento da maneira que é pensado.” (Hellinger, 2008)

Os fenômenos que observamos nas Constelações sugerem que a mente e a consciência operam em um nível transcendental de realidade que normalmente não está acessível a nossos sentidos e a nossa consciência; eles continuam operando nos campos de energia mesmo após a morte. As informações que fazem parte de nossas mentes/consciência (como memórias, emoções, pensamentos, ligações etc) não se perdem com a morte física, mas continuam acessíveis através do tempo e espaço e podem ser relativamente canalizadas pelos vivos, mesmo por aqueles que não conheciam ou não tiveram nenhum contato com os donos originais dessas energias armazenadas.

Além disso, através das Constelações também observamos as leis sistêmicas que operam em todos os sistemas humanos, desde o corpo, a família até organizações e nações, que nos ensinam sobre a natureza sistêmica do Universo. 

Cada um de nós está inserido em um complexo sistema de redes, holísticas por natureza, criativas e independentes. A natureza holística também assume a não dualidade como expressa visualmente através do símbolo taoísta do yin e yang, no qual a luz presente na escuridão e a escuridão presente na luz indicam que tudo contém um pouco de seu oposto polar. O Tao também faz alusão ao constante movimento do Universo, como o fluxo da água, que está em contínua mudança e assume formas diferentes ou temporárias.

In-formação

Nas Constelações sentimos o fluxo de informações que chega até nós através de uma corrente ininterrupta de experiências de nossos ancestrais e de toda a humanidade como a soma de todo conhecimento existente que in-forma (in-form em inglês, em- forma) quem somos atualmente.

Rupert Sheldrake reconhece o papel que tem a informação nos campos morfogenéticos ao nosso redor, determinando formas, mantendo padrões de ordem e também conectando um ao outro às estruturas relacionadas através do espaço e do tempo.

Se considerarmos a teoria de Sheldrake dos campos morfogenéticos, a ideia da Sincronicidade e do inconsciente coletivo de Carl Jung, o conceito budista do Dharmadhatu, o Tao ou o que em outras tradições é descrito como Deus ou o Grande Espírito, em todos os lugares encontramos a mesma compreensão: há uma força unificadora básica que guia e conecta tudo que se revela no universo:

“A compreensão da humanidade de nosso universo está atualmente se transformando em uma visão global que é, na verdade, o renascimento da ancestral sabedoria filosófica. Em termos muito simples, a emergente compreensão de nosso universo aceita que a consciência ou ‘a mente’ tem papel fundamental em co-criar nossa realidade interconectada e ‘cheia de vida’.”3

Através de teorias dos pensadores dos sistemas principais em particular, como Ervin Laszlo, uma figura do Cosmos aparece como um todo auto-organizado e auto-atualizado, onde cada parte está ligada à outra e todas as partes juntas geram as condições para o surgimento da vida e da consciência. Não somos apenas o produto da atividade de carbono e algumas proteínas vivendo e morrendo no Universo, mecânicos; evoluindo de acordo com algumas leis da física sem sentido:

“A visão de um cosmos lógico, interconectado e ciclicamente auto renovável não é nova. O mais importante em meio a seus antecedentes históricos é a visão que inspirou a imaginação de inúmeras gerações na Índia e por todo o oriente: a visão de um mundo que surgiu de Akasha.”(Laszlo, 2004)

A memória e a informação existem na natureza.; são fenômenos reais. Em um nível quântico vemos que toda partícula que alguma vez ocupou o mesmo estado quântico que outra, permanece conectada a ela, e a troca de informações ocorre entre elas através do tempo e espaço instantaneamente.

Em Constelações, observamos este fenômeno em um nível familiar e de outros sistemas humanos. Toda pessoa que já pertenceu a um sistema por muitas gerações, continua a pertencer e a se comunicar com todos os outros membros do sistema através do tempo e do espaço. As informações armazenadas em um campo daquela família podem ser acessadas por qualquer outro membro daquela família e, de fato, a energia dos destinos sofridos por nossos ancestrais continuam a informar as vidas de nossos descendentes vivos:

“Gerações após gerações de humanos deixaram seus traços holográficos no Campo-A, e as informações nesses hologramas estão disponíveis para a leitura. Os hologramas dos indivíduos estão integrados a um super holograma, que é o holograma abrangente de uma tribo, comunidade ou cultura. Os hologramas coletivos se assimilam e se integram ao super holograma de todas as pessoas. Esta é a fonte de in-formação coletiva da humanidade … Podemos sintonizar nossa consciência para ressoar com o holograma no Campo-A.”(Laszlo, 2004)

O Campo

            “Muito além de ideias de certo e errado, 
            há um campo. 
Nos encontraremos lá
            
Quando a alma se deita naquela grama, 
            o mundo está cheio demais para que falemos dele.” 
4

O campo in-formacional do universo fica mais e mais aparente quando estudamos a natureza de nosso mundo. O que era inicialmente considerado um ‘espaço vazio’ entre planetas e toda a matéria, com o constante crescimento do conhecimento científico, se tornou uma ‘totalidade de energia’ – um rico caldo de informações responsável por moldar (in-formar) nosso mundo. Essa compreensão se torna possível por meio de observações desde níveis quânticos a cósmicos. “o vácuo quântico é o mecanismo de informação holográfica que grava as experiências históricas da matéria.”(Mitchell in Laszlo, 2014)

Sabemos que nas Constelações é possível construir um sistema mesmo sem que algum membro do sistema familiar esteja fisicamente presente, o que aponta para a possibilidade de conexão entre todos no sistema da ‘família humana’ e mesmo além dela. Muitos consteladores sabem dessa possibilidade de se conectar dessa maneira e se comunicar não apenas entre os humanos, mas também outros seres vivos como animais e plantas, bem como outros elementos da natureza e conceitos abstratos. Portanto, temos que assumir um Campo comum pelo qual tal transferência de informação, tal conexão seja possível. O que isso nos diz também, sem sombra de dúvidas, é que a consciência possivelmente não pode se restringir ao cérebro de um ser vivo e que não pode ser a prerrogativa apenas dos humanos:

“A cura remota, energia e a cura por in-formação dependem das informações extra-sensoriais vindas de uma fonte que deve ser justificada em qualquer discurso sério a respeito da natureza da realidade – e esta, provavelmente, deve ser a mesma fonte que gera as interconexões entre a quanta e as conexões transpessoais entre organismos e mentes … dei o nome dessa fonte de Akáshica ou Campo-A.”(Laszlo, 2004)

A ‘coerência não local’ do Campo, que se torna aparente e tangível no processo de uma Constelação, sua habilidade de armazenar e transmitir informações e conectar tudo, não precisa ser atribuída a alguma força misteriosa além do nosso mundo natural, de acordo com Laszlo: 

“A coerência não local é um fenômeno científico genuíno, tão real e compreensível quanto a luz, eletromagnetismo, massa e gravidade – no entanto, inicialmente ela demonstrou ser tão intrigante quanto os outros fenômenos foram.” (Laszlo, 2004)

O conhecimento acessado através do Campo de Conhecimento nas Constelações não só fornece informações úteis, em relação às dinâmicas familiares, por exemplo, mas é curativa em sua essência, como se a exposição a esse Campo fornecesse um diagrama pelo qual sistemas se realinham, sempre buscando um equilíbrio maior, mais harmonia e saúde.

De fato, alguns cientistas e médicos, postulam que tal diagrama existe, ‘o padrão específico da espécie’ de acordo com o qual o ‘padrão morfo-dinâmico do indivíduo’ tem de se corresponder ou se sintonizar. Na verdade, a vida só pode ser sustentada no universo porque sistemas vivos ‘se sintonizam’ e ressoam com o padrão básico de in-formação presente no universo:

“A antiga compreensão de que o organismo pode se curar quando em contato com o universo é reafirmada na medicina com base no campo Akáshico. As informações que codificam todas as coisas no universo estão presentes em todo ser humano. Elas são completas e funcionais, guiando os incontáveis processos do organismo, e são capazes de corrigir uma vasta variedade de disfunções. Porém, elas precisam ser acessadas e, para pessoas modernas, primeiramente, identificadas como estando presentes e que podem ser acessadas.” (Sagi, 2018, p. 43) 

A Força Orientadora

Há muitas tradições filosóficas e antigos sistemas de conhecimento que apontam para conhecimentos muito similares, da mesma maneira que fazem alguns cientistas nas fronteiras de novos conhecimentos em muitas disciplinas diferentes.

O biologista desenvolvimental Bruce Lipton defende uma nova abordagem para a psicologia: 

“A mudança de Newton para a mecânica quântica altera o foco da psicologia dos mecanismos psico-químicos para o papel dos campos de energia. A psicologia energética foca no software de programação de consciência e não no hardware psico-químico que mecanicamente expressa o comportamento.” (Lipton, 2016)

Um amplo, novo e envolvente campo da ciência conhecido como noética admite que a estrutura do universo é criada à semelhança de seu Campo oculto:

“A consciência noética revela que coletivamente somos a encarnação do ‘campo’. Cada um de nós é ‘informação’ se manifestando e experimentando uma realidade física. Integrando e equilibrando a compreensão de uma consciência noética de nossa consciência física irá nos capacitar a nos tornarmos verdadeiros criadores de nossas experiências de vida.” (Lipton, 2016)

O professor Ervin Laszlo afirma corajosamente, mas com um argumento muito mais convincente e elaborado: 

“Uma inteligência superior rege o Universo e cria suas leis e a inteligência superior é espiritual por natureza.”(Laszlo, 2017)

Já Einstein escreveu:

“Todos que estão seriamente envolvidos na busca da ciência se convencem de que um espírito se manifesta nas leis do universo – um espírito muito superior do que o do homem, e um espírito ao qual devemos, com nossos poderes modernos, nos submeter.”(Laszlo, 2004)

(No original em alemão, ele utilizou a palavra ‘Geist’, palavra de difícil tradução que pode significar ‘espírito’, ‘mente’ ou ‘inteligência’.) 

Bert Hellinger escreveu consideravelmente (e lindamente) sobre o que nos conecta e que fundamentalmente, claro, torna possível a percepção representativa:

“Nos tempos de Platão, a palavra ‘psique’ significava algo que nos conecta a outros, que estabelece o tipo de conexão entre nós, que nos ajuda a perceber os outros e torna possível a compreensão do outro. A psique é a conexão invisível entre mim e o outro. Como poderíamos alcançar o outro sem a existência das ligações invisíveis entre nós que conecta meu espírito ao espírito do outro? Como o contato poderia ser possível sem essa ligação invisível que nos permite estar em contato com o outro e ao mesmo tempo com uma visão de algo maior de que todos nós dependemos?

O que é a alma? Tudo que existe possui alma, e a percebemos por meio de nossa alma, sintonizada com uma alma universal? O que está acontecendo por trás de tudo e de nós mesmos? Em tudo, uma alma infinita está em atividade. Sintonizada com esta alma e junto a ela, somos uma unidade com tudo que existe, e com tudo que existe junto a ela. Como? Com amor.” 5

Algum tempo se passou desde que Hellinger passou a ter consciência dos sistemas humanos pela primeira vez e também da natureza da realidade por meio das Constelações. O método tem mudado, bem como nossa compreensão da vida, do amor e da cura por meio dele. O papel dos representantes nas Constelações também mudou consideravelmente, de Constelações Familiares tradicionais para Constelações Espirituais; foi necessária uma sintonia ainda mais fina com os movimentos do Campo por trás delas. 

O que não mudou, àqueles que seguem os ensinamentos de Hellinger, foi o processo de contar com as informações do Campo em busca de orientação, compreensão e cura. Em seus escritos mais recentes, Hellinger se refere à Força, cujos trabalhos observamos através do Campo, como ‘Espírito-Mente’, e se entrega ainda mais a sua autoridade orientadora. 

No entanto, nomeamos essa Força (“O Tao que pode ser nomeado não é o Tao eterno”Lao Tsu, 1972), para mim, não há dúvida de que a essência das Constelações está na confiança em sua sempre presente sabedoria. É por meio dela que somos in-formados; é por meio dela que somos guiados, é por meio dela que nos conectamos e é somente em harmonia com ela que seguimos adiante:

“Aristóteles fala sobre a ideia de um primeiro motor, um motor que tudo move porque ele concebe. Portanto, tudo que existe deve sua existência e seus movimentos à concepção de um espírito que em tudo penetra. Daí segue a ideia de que o espírito não somente concebeu tudo, porque se movimenta, mas também continua concebendo a cada movimento. Observando por esse prisma, percebemos tal espírito e esse primeiro motor imediatamente operando em tudo que se move e na maneira que se move.”

“Isso mostra nas experiências que por vezes sentimos que estamos presos a um movimento e somos lavados a sua posse, como se ele viesse de fora além de nossas vontades e desejos pessoais. Acima de tudo, ele aparece quando um novo conhecimento nos é dado nesse movimento, expandindo nossa consciência., bem como a consciência da humanidade. Aqui esse primeiro motor mostra que, finalmente, tudo está em suas mãos.” (Hellinger, 2013, p.37)

A importância do fenômeno da percepção representativa não está apenas em nos ajudar a ‘ler a mente’ dessa Força em nossos esforços de nos alinharmos a ela para uma melhor saúde e bem-estar, mas também como sua manifestação clara expressa por sensações corporais e movimentos de representantes em particular em uma Constelação. A percepção representativa torna o Espírito e seus trabalhos visíveis.

REFERÊNCIAS

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Laszlo, Ervin (2017) The Intelligence of the Cosmos: Why are we here? New Answers from the Frontiers of Science. Inner Traditions, Rochester, Vermont, USA.

Hellinger, Bert (2008) Rising in Love: A Philosophy of Being.Hellinger Publications, Germany.

Hellinger (2013) The Churches and their God.Hellinger Publications, Germany.

Laszlo, Ervin (2004) Science and the Akashic Field: An Integral Theory of Everything. Inner Traditions Rochester, Vermont, USA.

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Lao Tsu (1972) Tao Te Ching, Random House, USA.

Lipton, Bruce (2016) Embracing the Immaterial Universe. https://upliftconnect.com/embracing-immaterial-universe/

Reddy, Michael (2012) Health, Happiness and Family Constellations: How Ancestors, Family Systems, and Hidden Loyalties Shape Your Life and what YOU Can Do About it.  ReddyWorks Press, Kimberton, PA, USA.

Sagi, Maria (2018) Healing with information: The New Homoeopathy. O-Books, Winchester, UK. 

Notas:

1. Vivian Broughton: The Intention Method, Blog post, www.vivianbroughton.com

2. Glenn Aparicio Parry: Native Wisdom In A Quantum World, www.shiftinaction.com/node/2705

3. Phillip J. Watt, Wake Up World, https://wakeup-world.com/2015/07/06/3-scientific-fields-that-are-helping-to-evolve-humanitys-worldview/

4. Rumi, Quotes, www.elise.com/q/quotes/rumi.htm 

5. Bert Hellinger: Monthly letters, July 2014, www.hellinger.com. (No longer available)

Alemka Dauskardttem mestrado em Psicologia com especialização na Gestalt-terapia, aconselhamento de relacionamentos, terapia intercultural e trabalhos com trauma. Alemka é uma praticante de Constelação em tempo integral em seu próprio consultório. 

Desde a primeira vez que teve contato com o Trabalho de Constelação em 1995, todas as áreas de sua vida professional e pessoal foram inspiradas por ele. Tem usado tal abordagem em cenários individuais e também trabalhando com workshops. Realiza treinamentos de Constelação Sistêmica na Croácia e em outras partes do mundo. 

No campo do trabalho sistêmico, seu foco tem sido nas constelações de reconciliação e no aprendizado de como eventos de um sistema maior moldam a esfera de relações íntimas. Alemka se interessa em explorar os desafios correntes que a prática e a comunidade consteladora tem de enfrentar. Também é escritora e tradutora de obras sobre constelação. Mais amplamente, está empolgada com a mudança de paradigma que vem acontecendo em tantas áreas relacionadas e vem abrindo novos horizontes. 

alemka1@yahoo.com

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