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“Sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”

Excerto do artigo* de Joan Garriga (2002). A Propósito de las Constelaciones Familiares en la Gestalt. Capítulo inserido no livro Gestalt de Vanguardia, de Claudio Naranjo. Editorial La LLave.

 

Poderíamos dizer que o principal tabu das pessoas é o tabu da felicidade e ainda que ela se deseje intensamente, pode ser difícil permitir-se ser intencionalmente feliz, quando a pessoa sabe que outras pessoas na família sofreram, foram infelizes ou que lhes tocou um destino particularmente difícil. Como disse Bert Hellinger “sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”.

Nas famílias actuam vínculos profundos de solidariedade que nos remetem para as limitações dos nossos antepassados, dificultam a sua superação e não nos permitem ir mais além. E ainda que vejamos nas constelações, uma e outra vez, que aqueles que foram infelizes desejam que a sua infelicidade seja respeitada e tomada como um destino próprio, sem que outros nele se envolvam, vemos também, uma e outra vez, como os sucessores ultrapassam esse limite e como, por uma espécie de amor mágico, pretendem libertá-los da sua desgraça ao tornarem-se eles próprios desgraçados, numa espécie de compensação negativa que afirma “se eu me sacrificar, talvez para ti seja melhor”. Desta forma repetem-se destinos e acumulam-se sacrifícios, sendo o resultado final ainda mais infelicidade. Por exemplo, um filho que se apercebe que um dos seus pais adoece ou deseja morrer (talvez por este seguir um antecessor ao qual se sente unido), ultrapassa o limite e diz internamente “eu adoeço no teu lugar” ou “eu morro no teu lugar” ou “sigo-te na desgraça ou na morte, etc.”.

Existe também na alma familiar uma instância profunda que procura restaurar o equilíbrio entre dar e receber e aí vemos também, com frequência, como os sucessores tentam expiar culpas dos antecessores, ao dar lugar àqueles que foram prejudicados e imitar o seu prejuízo. Como exemplo extremo, cito o de um filho cuja mãe morreu no parto. É um exemplo extremo porque a mãe dá o mais essencial – a vida -, e ela mesma perde o mais essencial. E para o filho é difícil tomar a vida a este preço tão alto e, frequentemente, procura enfrentar este tão grande desnível através da compensação negativa, dizendo a si próprio internamente: “a este preço tão elevado não a quero, portanto não a tomo plenamente e limito-me”. Mas o que é que assim a mãe ganha?  De novo actua este amor cego que não consegue ver claramente o desejo da mãe que morreu: de que o filho tome a sua vida plenamente e a desenvolva com felicidade e sucessos. Buda seria um exemplo de compensação positiva, pois faz grandes desenvolvimentos em memória da sua mãe que morreu três dias depois do seu nascimento, como consequência do parto.

 

*Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Adolfo Serra

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A triple orientação das constelações familiares

O passado nos conduz através da repetição, mas existe uma força poderosa, ainda maior, que vem do futuro e nos convida para a criatividade. Com sorte criamos formas de vida novas que não repetem necessariamente o destino e o jeito de quem veio antes. Se sucumbíssemos sempre à tendência de repetir não haveria novas formas e a vida se tornaria estática. Se a mãe praticou abortos, nós faríamos abortos. Se o pai viveu com culpa por algo que aconteceu na sua vida, nós viveríamos com culpa. Se o avô fracassou nos seus negócios, então nós também.

Parece que existe em nós uma tendência de nos parecer, de nos igualar, de viver submersos em aquelas atmosferas que são conhecidas porque foram transmitidas em nossas atmosferas familiares,  não de um jeito racional, nem sequer como linguagem da vontade ou da decisão, mas como algo osmótico, sutil, energético, magmático; algo que se respira nas famílias e na alma que as engloba. Mas a boa notícia é que a vida é criativa e orientada para o futuro. E o futuro está ai sempre, como uma força gigantesca, abrindo os seus braços com amor e com o desejo do melhor, nos oferecendo oportunidades para sermos novos, melhores, mais felizes e para que façamos coisas diferentes, para além do já conhecido.

Joan Garriga Bacardí

(Do workshop “A triple orientação das Constelações”. Barcelona, junho 2018)

(tradução livre autorizada M. Natalia M. H. Kopacheski)

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Relacionar-se

Vivemos um momento de abertura e, ao mesmo tempo, de desconcerto, sobre como podem ou devem ser os relacionamentos afetivos; e, nesse sentido, o que abordo – como se verá ao longo do livro -, situa-se em uma perspectiva de liberdade e de respeito, de fazer e deixar fazer. As pessoas não têm de comungar com dogmatismo de nenhum tipo, nem devemos nos sentir culpados por não fazê-lo. Há muita gente que sofre por não se encaixar em um esquema de suposta normalidade.

Há alguns anos escrevi: “Imaginemos um mundo no qual, por exemplo, a velhice, a doença, a timidez, a morte, o sofrimento inevitável, sejam bem vistos e façam parte respeitável do viver na mesma medida que seus contrários, a juventude, a saúde, a expressividade, a vitalidade e o prazer inevitável. Muitas pessoas sofrem ainda a pressão de não se encaixar naquilo que conviemos avaliar como bom; mas quem é capaz de afirmar que uma coisa é melhor que outra, que uma vida, por exemplo, é melhor que outra?”. A vida é felizmente, muito ampla e variada, e cada um tem suas predisposições e suas singularidades. Algumas pessoas são feitas para viver com o mesmo parceiro a vida toda; outras, para ter dez amantes ao mesmo tempo, e outras para ser padres ou freiras. Umas gostam de pessoas do mesmo sexo, e outras pessoas do sexo oposto. Cada um deve respeitar seu original jeito de ser, até mesmo suas próprias neuroses ou tendências condicionadas – embora deva trabalhar para modifica-las -, e não ficar tentando, de todas as maneiras possíveis se encaixar em um modelo ideal de relacionamento afetivo. O importante é a aceitação amorosa de si mesmo e da própria singularidade. E cada um pode encontrar regozijo no respeito a sua própria natureza e ser feliz seguindo-a. […]

Minha experiência me diz que nos relacionamentos afetivos não existem bons e maus, culpados e inocentes, justos e pecadores. O que existem são relacionamentos bons e ruins: relações que nos enriquecem e outras que nos empobrecem. Existem felicidade e infelicidade. Existem o amor que nos faz bem e o amor que não nos faz bem. É que não basta o amor para garantir bem-estar: é necessário um amor que nos faça bem. E reconhecemos este amor porque nele somos exatamente nós mesmos e deixamos que o outro seja exatamente como é, porque ele se orienta ao presente e ao que está por vir, em vez de nos amarrar ao passado; e especialmente porque gera bem-estar e realização.

Trecho extraído do livro: “O amor que nos faz bem – Quando um e um somam mais que dois”, Joan Garriga.