Sobre dar para a vida o que temos para dar…

Às vezes não somos o que somos e não damos o que temos porque sentimos medo e desconfiança. Preferimos não arriscar. Optamos por não nos expor e nos retraímos. Mas temos que saber que é um pecado contra a vida não dar o que temos, e um pecado contra nós mesmos não ser o que somos. Todos possuímos algo diferente: alguns têm um destino anônimo e simples;  outros, um caminho notável e complexo; algumas são mães, outras não; alguns são camponeses, outros, trabalhadores, médicos, artistas ou oleiros. Alguns ficam solteiros – a maioria – se casam, procriam, etc.

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Muitas vidas se amarguram por não seguir o ritmo do tambor que retumba em seus interiores (no âmbito que for: afetivo, profissional, social, espiritual, etc.), fracassam por não seguir a verdade dos próprios movimentos interiores, por não arriscar, por querer se manter a salvo na beira da aparente segurança, por medo da crítica, do desamparo, da pobreza, da solidão, de qualquer um dos quatro temíveis cavaleiros que se projetam no futuro. Contudo, nunca conheci alguém que, tendo seguido os verdadeiros rufares de seu tambor interior após reconhecê-los com clareza ( e às vezes integrando vozes contrapostas), se sentisse realmente perdido.

 

Texto extraído do livro: “A chave para uma vida boa”, Joan Garriga, Academia, 2017.

Sobre arriscar…

Em resumo, embora a vida seja maior que nós e escreva com seu sumo poder o que é, permite que cada um de nós procure ser o melhor amanuense possível para ensaiar um belo e satisfatório relato de nossa vida. Trata-se de uma dialética permanente: devemos fazer o que quisermos, sim, mas aceitar que a vida fará segundo seu capricho e vontade.

Há algum tempo  escrevi: “O Eu tem que se arriscar com todas as suas forças na direção do que deseja. Não diminuamos nossos sonhos. Não deixemos de querer aquilo que desejamos profundamente. Invistamos. Arrisquemo-nos na direção daquilo que nos move: o que me move é o amor, uma companheira, ter filhos; move-me escrever poesia, move-me cozinhar para os outros, move-me ser marceneiro, move-me contemplar o mar. Arriscamo-nos na direção do que ansiamos profundamente, e isso nos aproxima um pouquinho da felicidade; e estamos em paz conosco porque damos os passos adequados para ir ao lugar aonde queremos ir. Depois, a vida dirá. E a vida tem a última palavra. E, quando a vida fala, nós escutamos. E, quando conseguimos escutá-la, então, estamos também em uma sintonia maior com nossa felicidade.

Trecho extraído do livro: “A chave para uma boa vida – Saber ganhar sem se perder e saber perder ganhando a si mesmo” – Joan Garriga. Editora Academia 2017