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Paz interior

“Bem-aventurados os que se encontram em paz consigo. Felizes os que deixaram de brigar com si mesmos, com algumas partes interiores ou alguns eus inoportunos, que se apresentavam algumas vezes como hóspedes enfadonhos, inesperados e sem convite, perturbando sem reflexões as cenas da vida, na forma de ciúmes, inveja, rancor, queixa, grito, violências, etc. Bem-aventurados, pois, os que já não precisam evitar nenhum de seus aspectos internos, nada do que os constitui, nem sequer o que sentem como aborrecimento, inadequado, desagradável, o que em algum momento parece difícil de suportar. Trabalharam neles mesmos. Têm se esforçado para compreender e integraram o aparentemente evitado. O que lhes parecia escuro e pesado fizeram brilhar como aplicável e dourado. Submeteram-se ao desafio da alquimia interior e foram transformados: o que aparentemente era negativo se converteu em recurso para a graça de sua aceitação, a grande chave-mestra.”

(Joan Garriga, trecho extraído do livro “Viver na alma, amar o que é, amar o que somos e amar os que são”)

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Quem sou eu?

“Quem sou eu? Essa é uma pergunta crucial que, em diversos momentos ao longo da vida, todos nós nos fazemos, e cuja resposta se desdobra em sucessivas camadas de pensamento e, acima de tudo, de experiência e compreensão interior.

O grande sábio hindu Ramana Maharshi propunha manter a constante dessa pergunta, como eco em todo o nosso ser, como exercício de indagação para acessar a verdade interior definitiva. Confrontado como tal pergunta, o indivíduo costuma inicialmente responde-la de maneira tão automática como periférica à sua verdadeira natureza. Responde aquilo que acredita que é, conceitos com os quais se identifica, seu modo de ser, sua empatia de sexo, posição social, papéis como filho, pai ou esposo. Responde com meros atributos de si próprio. É o que podemos denominar de autoconceito e atributos de identificação pessoal e social; em definitivo, o que habitualmente chamamos de ‘a identidade’. Pelo menos a identidade histórica e conceitual.

Essa identidade resulta do conjunto de experiências físicas, emocionais e mentais, valores e identificações, traços, crenças e características  pelas quais nos reconhecemos como indivíduos singulares. […]

No entanto o objetivo da pergunta ‘quem sou eu?’ é descobrir que não é possível encontrar uma identidade fixa e definitiva, que o mundo das identificações, as experiências e as formas estão em constante movimento. Tudo muda e tudo se move. Nossos pensamentos vão e vem, nossos sentimentos também, nossos condutas são inconstantes. Nossos papéis, que parecem tão fixos, ser mãe, por exemplo, ou primo, ou chefe, carecem da força de uma identidade realmente essencial. Inclusive ser homem ou mulher, que parecem identificações tão sólidas, biológicas e definitivas, não deixam de ser categorias conceituais ao mesmo tempo em que são simples veículos que a vida designa para casa um. Além disso, são fenômenos que desenham um traje para se viver, mas não nos diz nada sobre o alfaiate nem a fonte que tudo cria. Não respondem ao essencial.” (Joan Garriga)

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Sobre o dar e o tomar

“Há quem possa pensar e até dizer: ‘Eu daria tudo por você, porque o amo tanto, tanto, que sem você não há vida para mim’. Isso pode parecer muito romântico, mas é um presente ou uma carga? Sem esquecer que com freqüência, como eu dizia antes, o doador compulsivo se coloca em um lugar de superioridade e esconde sua necessidade de receber, para manter o outro dependente e sob controle, fazendo-o se sentir necessitado, e defendendo isso como amor absoluto. Às vezes, é melhor que não nos amem tanto, mas que nos queiram bem, menos quantidade e mais qualidade.

Conta-se a história de uma pessoa que se sentia tão cheia de amor, de dons e de bens que queria dar tudo, absolutamente tudo, pois sua generosidade era imensa. Um dia, ela teve uma experiência de êxtase espiritual, sentiu que podia falar com Deus, e disse: ‘Quero dar tudo aos outros, absolutamente tudo, até a última gota do meu sangue’. Então Deus disse: ‘Que entrem os vampiros’. Conclusão: a respeitosa dança do dar e tomar no relacionamento nutre e fortalece, e afasta de seu santuário interpessoal tanto as tentações de sacrifício e pseudossantidade quanto as de vampirismo e dependência”.

Joan Garriga

(Trecho extraído do livro “O amor que nos faz bem, quando um e um somam mais que dois”)

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