Blog

jouan-garriga-banner-2017

Blog

joan

O verdadeiro poder

O verdadeiro poder está em se afirmar na realidade de si mesmo, não em se sentir superior a outra pessoa ou em dominá-la física ou psicologicamente. Experimentamos o próprio poder quando nos enraizamos e nos reconhecemos em nossa experiência real, em cada momento e lugar; quando estamos em conformidade com nossa realidade, com nossos sentimentos, problemas, alegrias, vivências, pensamentos, contradições, necessidades; com nosso lugar de origem, cultura, família, lutas; com nossos desejos de mudar aquilo de que não gostamos ou aquilo que sentimos como injustiça etc., ou seja, quando estamos em sintonia com nossa realidade tal como ela é a cada instante, e a administramos com respeito por nós mesmos e pelos outros.

Todos precisamos sentir nosso poder. Sentir que podemos, que somos adequados, que nos sustentamos sobre nossos próprios pés e somos válidos. Quando vivemos esse poder no relacionamento, o poder de um convida o poder do outro. E, então, os dois poderes produzem cooperação e respeito. Virginia Satir, no livro Contato com tato, ensina que o verdadeiro poder tem a ver com a congruência e com o que ela chama de “as cinco liberdades”: a liberdade de ver e escutar o que está aqui em vez do que se supõe que deveria estar; a liberdade de sentir o que se sente em vez do que se deveria sentir;  a liberdade de dizer o que se sente e pensa se quiser em vez de fingir; a liberdade de pedir o que se quer em vez de pedir permissão, e a liberdade de arriscar em vez de optar somente por sentir-se seguro. O poder da congruência foge, portanto, de posições de culpa, vitimismo, hiper-racionalidade ou indiferença, que, para Satir, não deixam de ser lugares de sofrimento e falso poder nas relações íntimas.

Trecho extraído do livro “O amor que nos faz bem – quando um e um somam mais que dois” Joan Garriga.

joan

Caminho da alma

Como digo, passamos o tempo criando um universo de afeições e fobias, temores e fervores, amores e ódios. Isso é feito mediante três ferramentas principais: a avaliação, a comparação e o juízo. Fabricamos o adorno necessário com toda a gama de emoções e paixões humanas: inveja, zelo, medo, pesar, tristeza, reclamação, exigência, enfado, ressentimento, culpa, vergonha, vitória, esperança, etc. Quem faz isso? Nosso ego, nosso caráter, aquilo que cremos ser.

Como seres individuais, costumamos unificar uma torre de refúgio para observar a vida e o transcorrer das coisas. Dali observamos o mundo e o encobrimos ou o iluminamos com nossas ideias a respeito de como devem ser as coisas para nos assegurarmos de que sejam como devem ser, e então podemos nos alegrar ou sofrer quando não é assim. É humano: que alegria quando as coisas são como desejamos, e que pena quando nos trazem frustração e nos contrariam! É o vaivém da vida. Todavia, esse modo de funcionar é pequeno e restrito, demasiado dependente dos caprichos da vida. É a fonte do sofrimento, nos deixa doentes e nos afasta do assentamento na Grande Inteligência. Em vez de olhar a beleza intrínseca de todas as formas da vida, nos horrorizamos diante de algumas e nos embevecemos frente a outras. O tirano, também chamado ego, vive dentro. O ego não é a maior das prisões, a escravidão mais velada e mais querida, a que menos estamos dispostos a questionar? Pois resulta que, como veremos, ser livre significa sê-lo de nós mesmos.

Assim é difícil escapar desse lugar que diferencia o bem e o ma. É o que nos toca como seres humanos, enquanto não despertamos. A boa notícia é que o mesmo instrumento, que nos afasta do paraíso, ou seja, a consciência que despedaça o mundo com seu bisturi conceitual, pode se desenvolver, amadurecer e chegar a nos avisar de nossa queda. E não só isso, mas também evitar nossa angústia e separação da vida natural. Quando isso acontece, quando recebemos esse aviso, dispara-se a primeira flecha em direção ao nosso despertar.

Tenho a suspeita de que a própria consciência inclui em si mesma a função de desmascarar o conceitual e encara-lo como é: uma ilusão, uma falsidade e um limite. A atenção onde a consciência diferencia e constrói conceitos é o que permite questioná-los e, talvez, colocar um fim. A consciência, percebendo a si mesma, pode potencialmente vislumbrar que seus intentos por criar um mundo próprio por meio de um sem-fim de imagens mentais a impede de encontrar o mundo real. Pois só um eu que alcança sua plena força é capaz de desnudar-se, suportar o tormento de que vão morrendo os personagens com os quais havia se identificado recorrer o verdadeiro caminho espiritual: chegar a ser ninguém. […]

Porque a meta do eu é desvanecer-se, dissolver-se nas águas do doce esquecimento, igual à do corpo. Alguns podem viver e reconhecer enquanto ainda permanecem na vida. Então já não gritam ao universo: “Eu existo!”. Guiados por uma profunda sabedoria que lhes faz felizes, sussurram a si mesmos: “Na realidade eu não existo, porém a vida canta em mim por algum tempo”.

Joan Garriga

(trecho extraído do livro “Viver na Alma: Amar o que é, amar o que somos e amar os que são”)

joan

O corpo como santuário da alma

Somos seres experienciais e a sutil substância de nossa experiência é produzida em nosso corpo. No corpo vivemos sensações, sentimentos, pensamentos e também a presença do transcendente. Ele é o laboratório pelo qual a Alma se expressa e experimenta, um presente material para nossa singular viagem pessoal a Ítaca. A residência do biológico, o hormonal, o instintivo: nosso santuário.

No corpo nos comprometemos com a grande inteligência que o governa, como refinamento e  conquista de milênios e milênios nos quais nossa espécie preservou e fez a vida evoluir. O corpo é a casa da vida e o legado primordial de nossos pais e ancestrais, que por meio dele nos passam uma vasta e útil informação.

O corpo não questiona a si mesmo. Segue regras de sua própria natureza. Nós, com nossa vontade, tentamos às vezes guiá-lo de acordo com nossas ideias, que nem sempre estão em consonância com suas necessidades. Por acaso o corpo está insatisfeito com si mesmo? É inimigo de suas doenças, quando na realidade ele mesmo as cria, as acolhe e até as leva à própria morte? Por acaso o corpo está contra ele mesmo?

O corpo é feliz quando é apreciado e respeitado, mimado e cuidado, quando é habitado com gratidão, como uma casa a qual damos nosso toque pessoal e a convertemos no reflexo do que somos. Todos temos a experiência de ir à casa de um amigo ou amiga e descobrir contentes que o espaço que habita lhe cai bem ou não. Ou, ao contrário, sentir que é um artifício, que com ela tenta parecer outro que não é.

A natureza tem prioridade sobre a mente individual, que é uma mente mais sábia e vasta na qual podemos descansar. O ponto é sintonizar nossa mente individual, nosso pensamento e vontade com a mente natural, com o que a natureza cria e organiza, tal como é. O primeiro passo para a sintonia é escutar e compreender o corpo. O segundo é deixá-lo viver em conexão com seus desejos mais profundos e com o que para cada um é natural e harmonioso.

Há muitas formas de nos sintonizarmos com nosso corpo. […]

Coloque-se em contato com a parte de seu corpo que sinta dor ou que incomode, a reconheça, a permita, a amplie inclusive, imagine que você se converte nela. Dessa maneira, você descobre que forma tem, que tendência ou impulso, quem parece quando se converte em seu rim dolorido ou na dor de costas ou no desafio de seu rosto. E também o que lhe diss, qual é sua mensagem, com o que tem de contribuir, pedir, rogar, exigir, agradecer, censurar.

Talvez (e essa é uma dinâmica muito comum quando se trata de doença) o membro dolorido ou o incômodo seja uma forma de conexão com alguém que não consegue se integrar. Frequentemente o corpo faz o trabalho que não fazemos, ama quando nós depreciamos. Certos sintomas ou doenças são tentativas de nos colocarmos em consonância com aqueles com quem estamos em dissonância. Frequentemente o corpo vive o outro lado dos assuntos que não nos animamos a viver abertamente: expressamos valor e força, mas o corpo se rompe como um passarinho que treme vulnerável e pede proteção.

Trecho extraído do livro “Viver na Alma” (Joan Garriga)