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Aceitação

“Para bem ou para mal, não governamos os afetos com nossa mera vontade; a linguagem do coração escreve em outro ritmo, sutil, decisivo e apaixonado, dificilmente quadriculado. Desse modo, muitos que não aceitam suas moedas e permanecem na queixa ou no ressentimento  se comportam, quando mais velhos, como seus pais ou reproduzem comportamentos daninhos iguais aos recebidos.

O que de fato ajuda é realizar o processo de aceitar também o que foi difícil, e com isso talvez nos tornarmos mais fortes ou  mais sábios. Ou seja, também o que parece negativo está a serviço da vida, e podemos aproveitá-lo a nosso favor. O sofrimento também é capaz de nos fazer mais plenamente humanos. Algumas pessoas que sofreram graves perdas ou traumas com seus pais, por exemplo, se superam e constroem uma vida com alegria e muito sentido. Em contrapartida, há pessoas que, amparando-se em pequenas frustrações com seus pais, se acham no direito de ter uma vida escassa ou penitencial e culpam os pais para justificar seus erros ou fracassos.

Devemos saber que nada nos impede de nos desenvolvermos bem, e que do passado conservamos apenas as cinzas em forma de imagens guardadas na mente. Que podemos transforma-las e ficar em paz com o que passou, ao menos com o que recordamos dele. E assim nos abrirmos ao presente, o lugar e o tempo do verdadeiro fogo de viver.

Em geral, as pessoas que realizam o processo interior de aceitar suas moedas e ficar em paz com seus pais e com sua história se sentem melhor consigo mesmas, estabelecem relações adultas e espontâneas mais facilmente e retribuem à vida com o que possuem.”

(Trecho extraído do livro: Onde estão as moedas? Joan Garriga, 2011)

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As roupas

“No século XV, viveu o monge mais famoso de todo o Japão, Ikkyu, filho ilegítimo do imperador. Quando o príncipe da província em que vivia decidiu dar uma grande festa, convidou Ikkyu, reservando-lhe um honroso lugar ao seu lado. No dia da festa, o monge apareceu humildemente vestido, quase como um mendigo, fazendo o príncipe se zangar e expulsá-lo da festa. Depois disso Ikkyu voltou vestindo ótimas roupas e, no palácio, foi tirando uma a uma e as deixando na cadeira. ‘O que está fazendo?’, perguntou o príncipe. ‘Havia entendido mal, pensei que tivesse me convidado e não convidado minhas roupas, assim estou as deixando aqui’, respondeu Ikkyu.

Se olhamos as roupas que simbolizam apenas formas, aparências, avatares, livretos que nos inspiram representar, destinos e caprichos, tanto como se olhamos além delas, para o mistério criativo, a pergunta relevante é: quem são os convidados à grande assembleia de nosso coração? Nesse sentido, estamos ainda a tempo de incluir aqueles que excluem nossas boas razões, que nossos sedutores argumentos afastam? Podemos convidar à mesa dos dignos aqueles que julgamos em nossa Alma Gregária, regida por su moral e leis? Aqueles que são ou foram esquecidos porque sua lembrança era vergonhosa ou árdua? Aqueles que acreditamos que se comportaram mal ou nos causaram dor? Nossa mente pequena, que costumamos identificar como nossa vontade, tenta negociar o mal-estar com o tentador recurso do afastamento e da solidão, separando o incômodo. Mas a Grande Alma conhece unicamente a matemática copulativa, que une e iguala.

Na Grande Alma todos os que são merecem ser queridos como são e como foram, exatamente assim. Em primeiro lugar nossos pais. Eles são os primeiros dos que são, quaisquer que sejam suas roupas e acessórios. A Grande Alma é o espaço do coração a coração, da estrita perfeição das coisas. Nela, somos Únicos.”

(Trecho extraído do livro “Viver na Alma, amar o que é, amar o que somos e amar os que são”, Joan Garriga, 2011)

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O caminho da dor

“Vemos que quem consegue integrar o difícil, atravessar seus lutos, enriquece a vida. Ao contrário, quem fica preso em seus gemidos olha tanto para si mesmo que seus olhos já não podem contemplar os demais nem a realidade circundante. A vida fere a todos de alguma forma, nos sacode sem contemplações em algum momento. Porém a pergunta-chave é: que atitude vamos tomar? Onde faremos desembocar o terrível luto que nos encheu de fúria e angústia?

Outro assunto suplementar, embora não menos importante, tem a ver com o fato de que a desgraça tem, para muitas pessoas, aberto a porta de uma vida mais plena. ‘A desgraça abre na alma uma luz que a prosperidade não vê’, reza uma sábia frase que muitos têm experimentado como certa. Perder em um nível pode significar ganhar em outra dimensão. Quando a vida golpeia as pessoas com coisas terríveis, às vezes se abre uma janela para uma realidade transpessoal, a compreensão de que somos guiados por uma vontade maior, uma confiança renovada.

Por meio do não desejado a sabedoria oculta se manifesta. Por exemplo, a pessoa que cai deprimida pode descobrir em seu processo que tem de mudar de trabalho, de vida ou até mesmo que sua vocação é outra. Ou o indivíduo que sofre uma enfermidade pode compreender que precisa estar mais presente na vida dos filhos, ou que tem de se separar. Além disso, quando as pessoas experimentam grande dor já não precisam tanto da armadura do eu para se defender. Para que, se já foram feridas?  Podem se livrar da armadura e serem pessoas mais abertas, confiantes e confiáveis para os demais. De modo que nas feridas assumidas reside a possibilidade de soltarmos as armaduras que se mostraram inúteis e voltarmos abertos novamente, como meninos vibrantes com a vida.

Quando o pequeno eu não consegue governar sua pequena nave e se rende, recebe o presente de uma graça desconhecida.”

(Trecho extraído do livro “Viver na Alma, amar o que é, amar o que somos e amar os que são”, Joan Garriga, 2011)

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